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PENSAMENTO

O poder da mente positiva na luta contra o câncer

quinta-feira, 13/06/2019, 20:06 - Atualizado em 13/06/2019, 20:06 - Autor: Igor Reis


Era o dia do seu aniversário de 23 anos, em outubro do ano passado, quando Thayná Luana recebeu a notícia de que o tumor localizado no cólo do seu útero era maligno. Ali, diante da sua família em Abaetetuba, ela tentou se manter forte. Era o começo de uma jornada de tratamentos intensivos de rádio e quimioterapia pela qual passaram e passam cerca de 16.370 mulheres brasileiras com este tipo de câncer até o final deste ano, segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

Para esta paraense, que vem enfrentando diariamente estes tratamentos, a clareza mental é fundamental. Não é fácil, como ela mesmo reconhece, mas é preciso acordar sempre acreditando que um dia será melhor do que o outro.

Segundo a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), 8,2 milhões de pessoas morrem de câncer a cada ano. A estimativa é que surjam 21,4 milhões de novos pacientes com a doença até 2032. Somente no Pará foram registrados cerca de 9260 casos em 2018. A maior incidência nos homens continua sendo o câncer de próstata, com 68.220 novos casos no ano passado no Brasil. Enquanto que nas mulheres o de mama, com 57.900 novos casos em 2018, é o mais recorrente.

 


PSICOLOGIA ESSENCIAL

A psicologia está presente em todo o processo, desde a investigação do diagnóstico, passando por consultas ambulatoriais, até o final do tratamento. O impacto em receber a notícia da doença afeta inevitavelmente a todas as pessoas que, naturalmente, como explicam os especialistas, passam a associar o câncer com a morte.

Manter um estado mental equilibrado num momento de tantas incertezas pode parecer um paradoxo, mas, entre as unanimidades profissionais quando o assunto são os tratamentos mais eficientes na luta contra o câncer, a manutenção do estado emocional é uma delas.

Para os profissionais que têm esta missão, manter o paciente com a mente firme pode fazer toda a diferença no resultado final do tratamento, ou, nos casos terminais, serve para dar dignidade ao enfermo diante da verdade.

A psicóloga paraense Larissa Ribeiro, especialista em psicologia hospitalar, lida frequentemente com esse tipo de paciente há quase cinco anos. O trabalho é intenso.

 

Para a psicóloga Larissa Ribeiro é importante que pacientes falem abertamente sobre a doença e o tratamento (Foto: acervo pessoal)

A experiência marca a vida de maneira profunda, tanto de profissionais como dos pacientes. “Atender pacientes oncológicos sempre é um desafio, partindo do princípio que cada ser humano é único, cada paciente reage de uma forma diferente ao diagnóstico, geralmente passando pela fase de negação e aceitação, até chegar ao tratamento. O câncer leva o paciente a desenvolver sentimentos como medo, estresse, ansiedade e depressão. Meu papel nesse processo é ajudar o indivíduo a entender as características da doença, bem como a importância da adesão ao tratamento, como se dá o processo, a duração, os efeitos causados. Visto que a prioridade é o bem estar do paciente, minha atuação se dá no auxílio da busca pelo equilíbrio entre o estado de vulnerabilidade e seu controle emocional, buscando respostas adaptativas para as mudanças que ocorrerão na vida do paciente.”, conta Larissa.

Ela ressalta que, embora a missão seja fazer o possível para manter um bom nível emocional nos pacientes, a psicologia trabalha apenas com o que é dito pelos mesmos, portanto, é preciso incentivá-los a falar abertamente sobre seus pensamentos, medos e angústias causados pela doença/tratamento.

Para Thayná, no que depender de sua mente, meio caminho para o tratamento já está feito. A jovem lembra que quando recebeu o diagnóstico se manteve firme. Ser forte e confiante, como faz questão de ressaltar, já eram características de sua personalidade, mas a ajuda dos profissionais, tanto do Ophir Loyola quanto do Hospital Barros Barreto, onde realiza os ciclos de seu tratamento, tem sido fundamental para ajudá-la a manter um bom nível de confiança.

 

Thayná e sua luta diária pela vida

“Claro, não foi e não é fácil. Só que ao receber a notícia, não tive aquela negação, e não fiquei deprimida, nem me fechei. Continuei sendo a pessoa que sempre fui alegre, e confiante. Claro que vem um sentimento ruim, mas eu tentei não focar nele, e sim na minha cura. E a partir daquele momento eu sabia que minha vida iria mudar totalmente, eu sabia também que essa caminhada não seria fácil. Mas eu não iria me entregar, iria lutar!”, conta a vaidosa jovem de 23 anos, que precisou deixar a família em Abaetetuba para morar com uma amiga em Belém, por causa dos tratamentos diários.

"A nossa mente é algo bem misterioso pra mim. Mas quando sinto dores, pra evitar de tomar remédio, eu tento pensar em outras coisas, tento fazer algo pra me distrair e muitas vezes funciona e faz eu esquecer um pouco a dor", revela Thayná, complementando que hoje, conhece o poder de sua mente muit mais do que antes.

FAMÍLIA: UM SUPORTE QUE TAMBÉM PRECISA DE SUPORTE 

Para lidar com a verdade o apoio familiar é de extrema importância para as pessoas com câncer. Os profissionais ressaltam que os pacientes necessitam diariamente se certificarem de que não estão sozinhos. No entanto, como faz questão de lembrar a psicóloga Larissa Ribeiro, "não é apenas o paciente que precisa ter apoio psicológico após o diagnóstico". Justamente por ter a função de ser um pilar seguro, o núcleo familiar também precisa ser olhado pelos profissionais.

“Após o diagnóstico, o sentimento de dor é coletivo. Familiares e amigos mais próximos também necessitam de um olhar diferenciado e um suporte emocional para lidar com a doença e com a provável perda, dependendo do caso”, orienta.

Para Gicely Pereira, oncologista com larga experiência e que atualmente trabalha nos hospitais da Hapvida em Belém, a presença de acompanhantes ou familiares esclarecidos e capazes de transmitir confiança é imprescindível não apenas durante as consultas, mas no dia a dia. Mais uma vez, a profissional alerta que a verdade sem “rodeios” é o melhor caminho para fortalecer o grupo paciente/família.

“A melhor forma de responder as dúvidas e os questionamentos sobre a doença oncológica deverá ser a forma mais clara e simples possível para que haja um bom entendimento entre médico e paciente”.

AO AGORA, TUDO! 

Como os próprios profissionais ressaltam, não há possibilidade de definir um perfil completo envolvendo todo o universo de pacientes. Cada um está inserido em um determinado contexto e o trabalho se baseia na escolha destas informações tão pessoais. Mas, algo em comum acaba surgindo em toda esta transformação na vida tanto dos pacientes como dos profissionais que os ajudam: viver e valorizar o dia de hoje.

O mesmo pensam Thayná e Larissa. Envolvidas no mesmo universo mesmo sem se conhecerem, ambas aprenderam a valorizar cada dia nesta passagem humana pela Terra. Quando questionadas sobre o que é a vida, as duas respondem algo muito parecido.

“Trabalhar com a psicologia nos faz refletir sobre a vida. Principalmente dentro do hospital. Onde atendemos pessoas lutando para sobreviver. Toda esta experiência me fez e faz diariamente entender a importância de viver o aqui e agora e valorizar o hoje, pois o amanhã é incerto demais.”, comenta de forma mais pessoal Larissa, recordando alguns casos que a marcaram profundamente, como a de uma paciente com leucemia em estado avançado, e que aceitou o desafio de engravidar para tentar curar com o nascimento da filha. Ou de um outro jovem que, mesmo sabendo de sua condição terminal, encarou seus últimos dias com firmeza e alegria, tendo feito inclusive um blog para ajudar outras pessoas na mesma situação.

Para Thayná, todos os momentos, inclusive os que se passam dentro do dia a dia dos hospitais, são únicos e é preciso vivê-los com vontade. A mente concentrada, mesmo quando atravessa algo tão complexo como a luta contra o câncer, é essencial para se poder contemplar a provisão infinita da vida.

“A vida é o nosso bem mais precioso, mas ao mesmo tempo é tão frágil, e capaz de terminar em um segundo. Todos os momentos em nossas vidas são únicos, e cabe a cada um de nós torná-los mais marcantes.”, afirma a jovem, que faz questão de deixar uma mensagem de força a todos.

“Por maior que seja a dificuldade pela qual estamos passando, não devemos desanimar. Devemos confiar, manter a fé e a esperança, sendo feliz todos os dias”.

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