CONFIRA

Guy Veloso lança livro virtual com registro de 17 anos de pesquisa e é destaque hoje no “Circular”

domingo, 05/04/2020, 09:40 - Atualizado em 05/04/2020, 09:40 - Autor: Wal Sarges


| Divulgação

Originário do latim, o termo penitência, muito conhecido dos católicos, significa o ato de arrepender-se dos pecados cometidos e ainda estar contrito a Deus. Durante quase duas décadas, o fotógrafo paraense Guy Veloso conheceu grupos de pessoas que saem pelas ruas para rezar pelas almas que estão no Purgatório. Penitentes, conhecidos ainda como “encomendadores de almas”, esses grupos existem em todos os 13 estados que ele percorreu, em cinco regiões Brasil afora, registrando rituais religiosos. Com uma câmera na mão, mostrou irmandades secretas e místicas que durante a Quaresma e a Semana Santa saem à noite em procissão rezando pelos mortos. Em alguns casos, há pessoas que praticam a autoflagelação.

Intitulado “Penitentes – dos ritos de sangue à fascinação do fim do mundo”, o resultado da pesquisa visual do fotógrafo foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018 e está sendo lançado em formato de livro virtual. Também é destaque, hoje, dentro da programação do projeto “Circular Campina -Cidade Velha’, que ganha versão on-line em tempos de coronavírus. Guy decidiu por esse tipo de lançamento para facilitar o acesso de todos que queiram adquirir o livro e, assim, tenham contato com sua obra sem sair de casa.

O livro está disponível na íntegra para download. “Decidi fazer isso em virtude dessa necessidade do isolamento. Já tem a versão física do livro, mas não estou comercializando ainda por conta das restrições impostas pelo coronavírus, pois não quero expor os carteiros, já que a entrega será feita pelos Correios”, frisa, consciente.

Guy diz que o interesse em documentar a vida e a história de penitentes surgiu no ano de 2008, quando ele foi atraído pela indumentária de um grupo em Juazeiro do Norte, no Ceará. “Vi um grupo de umas 20 pessoas cobertas com um manto azul e cruzes bordadas nas costas. Eram os ‘Aves de Jesus’, penitentes desta cidade que estavam indo orar para Padre Cícero. A partir disso, eu resolvi pesquisar em que outros lugares do Brasil poderiam haver confrarias semelhantes”, rememora.

Desde 2002 até o ano passado, já foram 17 anos ininterruptos de pesquisa fotográfica com o mesmo tema. “Ao longo desses anos, fiz questão de visitar alguns grupos várias vezes. Por 13 anos, por exemplo, eu fotografei sempre na Semana Santa um grupo de Juazeiro, na Bahia, comandado pela senhora Jesulene Ribeiro. Com o tempo, fui ganhando intimidade, tendo acesso a rituais secretos, em locais que ninguém pôde fotografar. Ela chegou a dizer que eu sou membro do grupo e todos começaram a me tratar como tal”, lembra.

Após tanto tempo, ele conta que essa aproximação com os grupos lhe deixou marcas. “‘Penitentes’ foi meu projeto mais longo. Imagine que foram 17 anos ininterruptos, e coloque aí mais um ano de pesquisa prévia e mais um ano para a produção do livro. Meu jeito de fotografar é chegar muito perto das pessoas, conhecê-las, ficar amigo, manter contato mesmo depois do projeto e isso acaba trazendo muita riqueza tanto para mim quanto pessoa, quanto para o resultado”, avalia.

CURADORIA

O projeto “Penitentes” contou com a curadoria de Rosely Nakagawa, que reuniu 97 imagens. “Fiz a edição dos trabalhos me distanciando de uma visão que pudesse confundir esse ensaio, que é poético e atemporal, com uma documentação antropológica. Durante os mais de dez anos de trabalho, fizemos diversos encontros para discutir a maneira como ele se apropriou do assunto, privilegiando na seleção uma visão transcendental dos penitentes. Eles realmente se dedicam de corpo e alma à purificação do mundo. Quem sabe com eles aprenderemos algo que a humanidade ainda não alcançou?”, acredita ela.

No livro, a curadora fala sobre as influências do fotógrafo que fundamentam a documentação. “[Guy Veloso] Busca nas influências europeia e africana o sincretismo brasileiro que o leva a aprofundar a questão da penitência, presente em alguns ritos. Passa a conviver prolongadamente com alguns grupos, para ser aceito, o que possibilita sua aproximação e a obtenção do registro fotográfico que ele almeja, feito com alma. Expõe e publica ensaios catalogando o resultado dessa diversidade e, ao mesmo tempo, aprofundando seu mergulho. Adquire compreensão que se transforma em comprometimento e o aproxima cada vez mais do indizível, imaterial, impossível”, analisa.

Apesar de circular pelo país, na obra é possível perceber a forte presença do Nordeste brasileiro. “O grupo de Juazeiro do Norte, no Ceará, acabou ficando de fora na seleção porque eles fazem outras práticas que não são comuns das cinco regiões que eu encontrei. O de Juazeiro do Norte é uma comunidade religiosa e que me chamou muito a atenção pela indumentária. Já, os outros penitentes são grupos familiares que, durante uma época do ano, em especial na Quaresma e Semana Santa, saem pelas ruas rezando pelas almas que eles acreditam estarem presas no Purgatório. São grupos laicos, sem nenhum envolvimento com a Igreja Católica, embora muitos se digam católicos, e que doam um pouco do seu tempo para saírem pelas ruas rezando. Em alguns casos dramáticos, que ocorrem em apenas 4% dos grupos pesquisados, sempre no sertão e sempre formado por homens, há práticas de autoflagelação, em que eles cortam as costas com chicotes em uma forma de fazer um voto a Jesus”, ressalta.

Em comum, o pesquisador diz também que todos os grupos registrados têm um interesse principal de rezar pelas almas sofredoras, apesar de esteticamente serem bem distintos. “No caso do Norte, como em Oriximiná, eles usam apenas um lenço sobre a cabeça onde aparecem os olhos. Ao contrário do que ocorre com os do Nordeste, que vão [aos rituais] com uma indumentária especial, cobrem o rosto com capuzes, vão com capas e cruzes desenhadas ou bordadas. Já no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, é raro encontrar indumentárias. A maioria deles vai à paisana. Mas é unânime que todos rezam pelas almas do Purgatório, que os cânticos são tristes, lúgubres e são rituais fora da Igreja Católica. Há também um sincretismo, que eles não assumem como tal, mas que são tidos por eles como gestos normais”, compara o fotógrafo.

FIM DO CICLO

A pesquisa rendeu vários outros trabalhos ao longo dos anos, como exposições e oficinas, mas o fotógrafo destaca que o projeto fotográfico encerra com o livro. “O projeto rendeu duas exposições importantes: na ‘29º Bienal de São Paulo’, que eu participei com 16 fotos deste ensaio, e uma individual com 25 fotos na ‘Bienal Internacional de Artes de Denver’, nos Estados Unidos. Agora eu considero o projeto encerrado com o livro. Claro que eu adoraria ter convites de outros locais para expor, mas a pesquisa em si e as eventuais viagens para buscar essas fotos eu não conto mais”, diz, ressaltando que isso não significa romper laços sólidos que construiu por tanto tempo. “Penso, sim, em viajar para entregar o livro nas mãos dos fotografados e para rever os amigos. Com uma tiragem geral de 1,5 mil exemplares, vou pegar 15% e presentear as pessoas que aparecem nas fotos e os líderes dos grupos que foram fotografados”, acrescenta.

OUTRAS AÇÕES

Circular Digital

Quando: Hoje, das 8h às 23h

Onde: Facebook e Instagram @circularcampinacidadevelha

Mais informações: www.projetocircular.com.br

PROGRAMAÇÃO

8h - Prática de Yoga - Tunga

8h30 - Contação de História - Cleber Cajún

9h30 - Bate-papo

“O Lixo, os Catadores e o Coronavírus” - Paulo Pinho

10h – Bate-papo “Roteiros na Internet” - Michel Pinho e Goretti Tavares

10h30 - “Arte Pela Vida - Boca do Poema” - Marton Maués

11h – Música com Alex de Caztro e Rafael Guerreiro

11H30 - Mostra Rui Santa Helena - Vídeo Homenagem

12h - Boca da Terra – Prática de Cultura Alimentar

12h30 – Teatro com os Palhaços Trovadores #FicaEmCasa

13h – Vídeo com Hudson Andrade

13h30 - Galeria Fábio Pina + Video Úrsula Bahia

14h - Revista Circular

14h30 - Livro + Vídeo com Guy Veloso

15h – Mostra Rui Santa Helena - Curta “Matinta”, de Fernando Segtowick

15H30 – Mostra Rui Santa Helena - Curta “Mulheres Choradeiras”, de Jorane Castro

16h – Vídeo de Renato Torres e João Urubu

16h30 - Live Paint (Desenho) com Igor Diniz

17h – Mostra Rui Santa Helena - Curta “Quando a Chuva Chegar”, de Jorane Castro

18h – Bate-papo com Chico César e Da Tribo

18h30 – Videoclipe “Triste Rotina” - Paredes Libertas

19h – Bate-papo “Arte e Arquitetura” - Papo de Arquiteto

19h30 – Mostra Rui Santa Helena - Curta “Ribeirinhos do Asfalto”, de Jorane Castro

20h – Lançamento do Doc “Ser Circular É Tocar o Coração da Cidade”

20h30 - DJ Zek

21h30 – Mostra Rui Santa Helena - Filme “Pra Ter Onde Ir” (1h40min), de Jorane Castro

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