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Tchau, Bonzão Bonitão

domingo, 21/04/2019, 20:55 - Atualizado em 21/04/2019, 20:55 - Autor:


Como um filme em que o espectador percebe um derradeiro fim se aproximando, muitos percebiam que o Cine Ópera era um sobrevivente inesperado entre os cinemas de rua que há vários anos foram fechando as portas em Belém, como ocorreu no resto do país. De tempos em tempos, corria a notícia de que uma igreja arremataria o prédio, como ocorreu com o saudoso Cine Palácio, na avenida Presidente Vargas - com uma certa ironia, já que a sala se manteve ao longo dos anos com uma programação de filmes eróticos. E ao que tudo indica, o negócio, enfim, está prestes a ser fechado, com a venda do prédio e o encerramento das atividades do último cinema de rua comercial da cidade.


O burburinho começou a se instalar depois que o produtor cultural Sérgio Fiore divulgou no Facebook que um dos funcionários do estabelecimento tinha confirmado o fechamento. “Em breve, o Cine Ópera encerrará suas atividades, e atualmente seu espaço é disputado por... Isso mesmo, igrejas. E por isso, aproveitei para passar ontem (17) na portaria e registrar o que são seus últimos dias. Não há tristeza. Ao menos, não aparente. O porteiro sorri quando eu pergunto se é verdade que vai fechar e ele confirma”, relatou.


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A postagem gerou certa comoção, principalmente entre quem, nos últimos anos, dedicou-se a realizar algum tipo de projeto voltado a mostrar o valor histórico do Ópera. Foi o caso da arquiteta Salma Nogueira, que ligou para o atual responsável pelo cinema, o engenheiro elétrico Luiz Alberto Hage, para confirmar a situação, pois pretendia defender sua dissertação de mestrado - sobre o Ópera - em sua sala de exibições. “Ele disse que não tem nada certo ainda sobre o fechamento, só disse que uma igreja se interessou”, conta.


Como dito, essa não é uma história recente. Victor de La Rocque, diretor do documentário “Ópera: O Bonzão Bonitão”, lançado em 2013, na sala de exibições, conta que naquele mesmo ano os donos pretendiam vender o cinema. “Mas a igreja não quis pagar o preço que eles queriam. Talvez agora eles acertaram um valor”, especula.


Salma relata que durante as entrevistas para sua dissertação, Luiz Alberto falava com tristeza sobre uma possível venda, “agora, parece que estão mais conformados”, diz ela. 


CINEMA COM HISTÓRIA


Inaugurado em 1961 pelos irmãos libaneses João Jorge Hage e Elias Hage, o Cine Ópera era principalmente um cinema de arte. Abriu pela primeira vez suas portas com o filme alemão “Noites do Papagaio Verde” (1957), do diretor Georg Jacob. “Por ter escolhido se especializar no gênero pornográfico, muitos autores não o reconhecem como cinema de rua. Não dá para esquecer toda a história dele, que só passou a exibir pornôs em 1985, e isso como forma de existir, de sobreviver. Ao exibir filmes pornôs, inclusive, ele passou a ser o cinema com maior arrecadação da cidade. Meu trabalho discute essa questão: ele merece ser patrimônio ou não, apesar do pornô?”, aponta Salma Nogueira.


A parceira de pesquisa de Salma, a historiadora Raíssa Barbosa, reforça esse valor histórico. “Um cinema de 1961, que tem uma reserva técnica incrível, com máquinas e móveis de outros cinemas que não resistiram. O Ópera é quase um museu dos cinemas de rua da década de 1960”, afirma. 


Dentro dessas raridades ali presentes, estão projetores cinematográficos movidos a carvão, algo que nem o Cine Olympia - o cinema mais antigo ainda em funcionamento no Brasil e hoje subsidiado pela Prefeitura Municipal de Belém - tem mais. “Queria ter uma influência acadêmica absurda para mantê-lo funcionando. Conheci, como historiadora desse lugar, um espaço de sociabilidade incrível, de transgressão e de resistência do público LGBT. Eu estou triste com isso”, completa Raíssa. 



(Foto: Ricardo Amanajás/Diário do Pará)


TOMBAMENTO


As duas pesquisadoras se aproximaram da história do Ópera por meio do documentário de Victor de La Rocque, que já falava “numa resistência que busca no sexo a sua sobrevivência e permanência no centro da cidade de Belém”. Sérgio Fiore conta que a única vez que teve a oportunidade de entrar ali foi justamente para assistir ao documentário e pôde refletir sobre como o cinema se transformou num lugar folclórico da capital. “E surrealmente, se localiza a poucos metros da Praça Santuário e da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Garanto que poucas alegorias mostrariam tão bem o profano e o sacro vivendo em harmonia”, afirma.


DIA SANTO


A provável despedida, inclusive, também guarda um ironia. A notícia chega em plena Semana Santa, único período do ano em que a pornografia saía das telas do Ópera para dar lugar ao filme “A Vida de Cristo” (1902), de Ferdinand Zecca, um dos primeiros filmes feitos na história do cinema para contar a Paixão de Cristo. Era uma tradição, na verdade, de todos os cinemas de rua da cidade.


“O Luiz conta que o avô, João Jorge Hage era cinéfilo, morava em cima do cinema e descia direto para lá para acompanhar o andamento de tudo. Quando não podia mais cuidar do cinema, pediu ao Luiz para ajudar. Quando o entrevistei, o avô dele já não podia mais descer, mas sempre perguntava se estava se mantendo tudo, incluindo o ritual antes dos filmes, da mudança das luzes e tocar o bongo. Assim como a exibição de ‘A Vida de Cristo’ na Semana Santa. É um cinema com uma história muito rica; a pornografia é mais um adendo”, afirma Salma.


Sem contar as inúmeras histórias de seus frequentadores, piadas e lendas urbanas tendo a sala de exibições como cenário. “...depois de assistir o documentário, percebi que era mais do que uma sala de filmes eróticos. Era também refúgio para pessoas de todos os estilos e tipos. Para onde irão quando tudo acabar? O Ópera vai chegando ao fim, sem que nenhum órgão de cultura local tenha se preocupado em preservá-lo. Que sorte teve o Olympia, de ser o cinema mais antigo do Brasil em atividade e ser salvo”, lembra Sérgio.


 


(Foto: Wagner Santana/Diário do Pará)


HISTÓRICO


Por acreditarem que a história e importância do Ópera vão além do conteúdo pornográfico de seus filmes, as duas pesquisadoras, Raísa Barbosa e Salma Nogueira pretendem realizar o pedido de tombamento do cinema junto aos órgãos competentes.


“O professor [João de Jesus] Paes Loureiro disse que precisamos elaborar um projeto com uma justificativa muito boa para convencer, já que o Ópera é reconhecido pelo pornô, mas ele é um verdadeiro museu do cinema. E que já convive harmoniosamente, há muito tempo, com a Basílica. Uma hora a gente sabe que vai acabar, mas a gente quer manter a história, pelo menos, o tombamento como patrimônio pra gente não perder a história dele”, finaliza Salma. 


(Laís Azevedo/Diário do Pará)

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