Colunistas / Gerson Nogueira

ANÁLISE

Gerson Nogueira destaca a magnitude do clássico RexPa e o ataque azulino 

O colunista do Diário do Pará, Gerson Nogueira destaca elementos marcantes do clássico Re-Pa do último sábado

segunda-feira, 05/10/2020, 09:25 - Atualizado em 05/10/2020, 09:29 - Autor: Gerson Nogueira


Festa dos jogadores azulinos após o gol da vitória
Festa dos jogadores azulinos após o gol da vitória | Wagner Santana/ Diário do Pará

Fazia um tempão que não se via um clássico no sentido pleno do termo. Todos os elementos capazes de incendiar um jogo estavam ali no gramado do Mangueirão, sábado à noite. Intensidade, propostas ofensivas, mínima preocupação com bloqueios e luta incessante pela vitória. O Re-Pa só se justifica quando disputado dessa forma. Do contrário, torna-se um jogo como outro qualquer.

Quando saíram as escalações, com três homens de meio-campo e três atacantes de cada lado, ousadia dos dois treinadores, ficou a certeza de que a partida seria disputada em estado de alta combustão, com possibilidade de muitos gols.

O 1º tempo não confirmou a previsão. Por capricho dos deuses da bola, não houve gol, apesar das mais de 10 chances de lado criadas. Ricardo Luz mandou uma bola na trave de Gabriel Leite. Vinícius Leite chutou no canto para excelente pegada de Vinícius.

Outros lances de perigo se sucederam nas duas áreas, mas faltou sempre o apuro no último chute. O equilíbrio predominou na primeira metade, com os times se alternando na criação de momentos mais agudos no ataque. Um jogo gostoso de ver, apesar do placar em branco.

No intervalo, Matheus Costa não mexeu na formação do Papão. Manteve a meia-cancha com Serginho, Calbergue e Juninho. O ataque seguiu com Uilliam, Nicolas e Vinícius Leite.

Do lado leonino, Paulo Bonamigo expôs a insatisfação com uma peça destoante: Gustavo Ermel, que errou praticamente todas as jogadas e escolhas, foi substituído por Wallace. Sábia decisão.

Com Wallace, o ataque ganhou mobilidade, passou a girar melhor a bola e a marcar presença pelo lado esquerdo. Na direita, Hélio Borges e Ricardo Luz se movimentavam bem, atacando muito e ao mesmo tempo criando empecilhos para as saídas do PSC por ali, com Collaço e Vinícius Leite.

Logo aos 7 minutos, Hélio tocou para Ricardo, que avançou até a beirada da área e deu um passe recuado em direção à marca do pênalti, onde Hélio já estava posicionado. O atacante bateu rasteiro e marcou. Um lance simples, mas bem elaborado, resultando no primeiro gol do clássico.

Superior no jogo, o Remo avançou novamente pela direita para ampliar a vantagem, aos 17’. Ricardo Luz chegou à linha de fundo, cruzou rasteiro, a bola foi rebatida pela zaga e recuperada por Carlos Alberto, que tocou para Marlon disparar uma bomba indefensável. O gol mais bonito da noite.

Depois disso, o Remo construiu mais dois lances agudos, que poderiam ter resultado em gol. Primeiro, Wallace invadiu a área e chutou no ângulo direito, mas Gabriel Leite espalmou a escanteio. Na sequência, Mimica desviou bola no primeiro pau e acertou o cabeceio no travessão.

Ali pelos 30 minutos, começaram as trocas, que determinariam as reviravoltas no placar. Matheus trocou os laterais, colocando Netinho e Diego Matos. Substituiu Juninho por Alex Maranhão, Calbergue por Luiz Felipe e Uilliam por Elielton. O PSC melhorou, passou a ser mais ágil nas tentativas de ataque.

Bonamigo manteve a pegada ofensiva. Botou o novato João Diogo no lugar de Hélio. No meio, tirou Lucas e lançou Gelson, substituindo Carlos Alberto por Dioguinho.

Aos poucos, o PSC foi quebrando as resistências de marcação e conquistou dois escanteios seguidos. No segundo, aos 38’, Wesley iludiu a marcação remista e testou para as redes. Jogada manjada, mas que funciona sempre.

O jogo ficou eletrizante. O gol atiçou os bicolores, que aumentaram presença no campo azulino. Quatro minutos depois, em lance rápido na área, a bola se apresentou à Nicolas, que tocou de primeira para empatar. Não era um placar justo, mas se inseria no paiol de surpresas que o Re-Pa costuma reservar.

O empate a poucos instantes do final recolocou em cena o peso do tabu de 10 jogos que o PSC mantinha sobre o rival. Só que, logo a seguir, veio a jogada definitiva. Bola com Wallace, que avançou até a área, deu um corte em Netinho e bateu à meia altura, no canto direito de Gabriel Leite: 3 a 2.

Emoção até o fim, como reza a bíblia do Re-Pa.

No ataque como se não houvesse amanhã

Aos 47 do 2º tempo, Paulo Bonamigo fez a quinta substituição no Remo. O time havia acabado de fazer o terceiro gol e ainda teria que enfrentar alguns minutos de pressão para assegurar a vitória. O técnico Sacou Eduardo Ramos, cansado, e promoveu a estreia de Eron, atacante oriundo do Vitória-BA.

A opção por um atacante em momento crítico da partida diz muito do estilo do técnico. Para Bonamigo, o risco é parte do processo.

Atacar sempre, brigar pelo gol, mesmo que represente uma temeridade, como a troca de Ramos por Eron a minutos do fim. Atitudes típicas de um técnico que não abre mão de suas crenças ofensivas. Poderia, ao invés de colocar mais um atacante no jogo, optar por um defensor, como Warley ou Kevem. Mas, aí, não seria Bonamigo.

Muitos torcedores, em manifestações após o jogo, mencionaram os riscos que o time correu no finalzinho do clássico. Essa lembrança tem a ver com as circunstâncias da virada-relâmpago que o Remo sofreu para o PSV na primeira partida da decisão do Parazão.

Acontece que, naquela ocasião, o Remo era dirigido por Mazola Junior, um defensivista em tempo integral, que preferiu segurar o placar mínimo e acabou castigado. Bonamigo pode até sofrer um revertério, mas jamais por excesso de cautela ou medo.

No futebol conservador de hoje, a solução ofensiva abraçada por Bonamigo pode parecer temerária, mas, convenhamos, é bem mais interessante e saudável do que a retranca canina que alguns técnicos praticam, impunemente.

É importante destacar a firme contribuição de Matheus Costa ao futebol ofensivo e de peito aberto, visto no sábado à noite. O PSC foi até mais ousado na proposta inicial, surpreendendo com um volante (Serginho), um meia recuado (Alan Calbergue) e um articulador (Juninho).

A configuração, rara num clássico, foi uma pequena mostra do que Matheus preparava para o jogo, onde recorreu a todas as alternativas para reverter o resultado construído pelo Remo no segundo tempo. O esforço deu certo. O PSC alcançou o empate. O castigo do terceiro gol não tira os méritos de uma atitude tão ousada quanto à do rival.

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