CIÊNCIAS

GALILEU entrevista Scott Kelly, o homem que viveu 342 dias no espaço

POSTADO EM: Quarta-Feira, 21/02/2018, 15:00:04
ATUALIZADO EM: 21/02/2018, 15:00:04

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Scott Kelly (Foto: Divulgação/Nasa)

Scott Kelly (Foto: Divulgação/Nasa)

David Bowie morreu, seres humanos detectaram as primeiras ondas gravitacionais, 1 milhão de refugiados cruzaram as fronteiras europeias e o Brasil se acabava com o hit Aquele 1%, de Wesley Safadão. Esses são só alguns dos muitos acontecimentos que abalaram o mundo entre os meses de março de 2015 e de 2016. Scott Kelly perdeu todos eles.

É o preço que se paga por passar um ano — ou melhor, precisamente, 342 dias consecutivos — fora do mundo. Durante esse período, o astronauta da Nasa hoje aposentado esteve a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI), onde foi cobaia de um dos mais importantes estudos para o futuro da humanidade no espaço.

Kelly e seu irmão gêmeo (que ficou na Terra), o também astronauta Mark Kelly, submeteram-se a uma bateria de exames para que os cientistas estudassem os efeitos de estadias prolongadas em microgravidade e descobrissem como manter o corpo humano saudável nessas condições.

Sabe-se, por exemplo, que a visão dos astronautas é comprometida e que a intensa radiação pode provocar danos genéticos. Sem esse conhecimento, é impossível mandar missões tripuladas a Marte. “Mas, do jeito que a ciência funciona, especialmente a ciência da Nasa, a partir do momento em que se coletam os dados, levam de três a cinco anos para publicá--los”, disse à GALILEU. “Então ainda estamos publicando os resultados.”

Em seu livro Endurance: Um Ano no Espaço, lançado no Brasil em novembro pela editora Intrínseca, Kelly mescla uma narrativa no estilo diário de bordo, dividindo os detalhes da vida na EEI, com as memórias de sua trajetória pessoal desde a infância. Ele conta coisas como as superstições esquisitas antes do lançamento (todo astronauta deve fazer xixi no mesmo ponto em que Yuri Gagarin fez pouco antes de entrar no foguete) e as dificuldades em órbita — os níveis de dióxido de carbono na atmosfera da estação talvez sejam a maior delas.

Mas, até entrar na faculdade, antes de construir uma carreira brilhante na Nasa e na Marinha, como piloto naval, Kelly revela que tinha muita dificuldade nos estudos. “Esse livro não é apenas sobre voos espaciais. É sobre um garoto que não conseguia fazer seu dever de casa, foi inspirado por um livro aos 18 anos e, 18 anos depois, voou para o espaço pela primeira vez”, diz. “Acho que isso tem apelo para uma audiência maior.”

Capa do livro de Scott Kelly (Foto: Divulgação)

 

O livro inspirador é The Right Stuff (Os Eleitos, publicado no Brasil pela editora Rocco), do jornalista norte-americano Tom Wolfe, que narra a história dos primeiros astronautas do programa espacial dos EUA, destemidos pilotos de teste que pousavam em porta-aviões. Kelly quis ser igual a eles — e conseguiu. Até ligou para Tom Wolfe da ISS. Confira nossa conversa com o astronauta. 

Antes de se aposentar, em 2016, aos 52 anos, você passou 520 dias no espaço. Como se sente a respeito de sua carreira?
Sinto-me privilegiado por ter voado ao espaço, por ter tido a oportunidade de fazer isso quatro vezes. Tive uma experiência bem diversificada, como piloto em uma missão de reparo do telescópio espacial Hubble e, mais tarde, ao voar como comandante do ônibus espacial até a estação. Depois, duas vezes na Soyuz, em voos de longa duração na EEI. Sinto-me muito satisfeito com minhas oportunidades.

Quando você entrou no programa de astronautas, em 1996, havia a expectativa de que seu grupo poderia ser o primeiro a ir a Marte. Isso nunca aconteceu. Agora que está aposentado, é ruim pensar que provavelmente nunca pisará no Planeta Vermelho?
Não me sinto mal em relação a isso. Sou grato por ter tido as oportunidades que tive e estou ansioso por dar apoio para que as pessoas possam chegar lá um dia. Sem arrependimentos.

Em Endurance você conta que, no início da exploração espacial, os astronautas eram escolhidos pela habilidade de pilotar espaçonaves, mas hoje há qualidades mais valorizadas. Qual seria “a coisa certa” para a primeira tripulação em Marte?
Pessoas que sejam capazes de trabalhar bem juntas, como um time, que sejam tecnicamente competentes, confiáveis. Pessoas que tenham muitas outras habilidades além de pilotar. Aqueles primeiros astronautas com certeza dariam ótimos membros de tripulações na estação espacial ou para ir a Marte, mas há outros tipos de pessoas aí fora que não são simplesmente aquele estereótipo do piloto militar dos anos 1960 e que também poderiam ser ótimos membros de tripulação.

Acredito que ter experiência ampla, com certa profundidade, e ter habilidade de fazer muitas coisas diferentes são pontos importantes para irmos a Marte, porque vivendo na estação espacial por um longo tempo você não pode chamar um encanador, um eletricista, um doutor ou um dentista. É preciso ser muito flexível e adaptável. Isso será essencial para o sucesso deles.

Há problemas em aberto com relação aos voos espaciais que precisamos resolver antes de embarcarmos em jornadas interplanetárias. Quais são os fundamentais?
O que vai nos impedir de ir a Marte ou desacelerar nossa potencial jornada é o financiamento para isso. Será caro, vamos precisar de pessoas no governo que reconheçam o valor da ciência, da pesquisa e da descoberta. E creio que este seja o maior desafio que temos: não a ciência dos foguetes, mas a ciência política.

Gêmeos Kelly são cobaias da Nasa: Scott (à dir.) passou um ano no espaço; Mark (à esq.) ficou na Terra (Foto: Divulgação/NASA)

 

 

Seu livro também descreve o problema do dióxido de carbono e a dificuldade que os controladores de missão têm de confiar no julgamento dos astronautas. Como melhorar isso?
Não diria que não confiam no nosso julgamento. Diria que você está em um lugar em que é os olhos, as orelhas e as mãos de um sistema grande no solo. É uma perspectiva diferente. Mas o solo também tem uma perspectiva diferente, e as prioridades que eles têm nem sempre são claras para nós a bordo. Por exemplo, eles podem ter de levar em conta a operação do sistema de remoção do CO2 ao longo de anos, não no curto período de tempo em que um tripulante específico está a bordo.

Minha prioridade na estação espacial, pelo menos no começo, era que o nível de dióxido de carbono fosse o mais baixo possível para que eu me sentisse bem e pudesse fazer meu trabalho. Essa pode não ser a mesma prioridade do centro de controle. Como nossos recursos no espaço são limitados, eles provavelmente iriam preferir que o CO2 estivesse um pouquinho mais alto, até o limite do suportável. Sim, cada um tem as próprias perspectivas. Eu certamente escrevi de acordo com a minha, mas também mantive a deles em mente. [Os purificadores a bordo nem sempre dão conta de deixar o ar limpo. Quando são submetidos a altas concentrações de dióxido de carbono, os astronautas costumam ficar irritadiços e perdem o foco. Ambos os comportamentos podem ser fatais em um ambiente estressante e perigoso.] 

Você diria que falta um pouco de empatia nessa comunicação?
Não diria isso. Falamos de uma situação em que você não está se sentindo o melhor possível, e às vezes tem-se a impressão de que as pessoas não se importam. Mas acredito que, se você cavar mais fundo, vai perceber — eu percebi depois — que existem, sim, pessoas que se importam, e com muitas delas não temos sequer a chance de conversar, já que várias discussões são conduzidas nos bastidores e nem chegam até você quando se trata de um tripulante no espaço.

No livro, você também descreve muito bem o experimento em que disseca roedores. sentiu algum tipo de identificação com eles, já que foi objeto de um estudo menos “invasivo”, porém similar? 
Sim, com certeza. Meus pequenos irmãos espaciais. Na verdade, irmãs espaciais: eram fêmeas (risos). Parece que os ratos machos são um pouco agressivos.

Você pode nos contar, por favor, as principais pesquisas e os principais resultados obtidos até agora com o estudo dos gêmeos?
Foram publicados resultados sobre os nossos telômeros — são essas coisas genéticas no fim de nossos cromossomos que indicam nossa idade física. Os meus ficaram melhores no espaço. As hipóteses sugeriam que os meus ficariam piores comparados aos do meu irmão, mas, na verdade, melhoraram.

Há também indicações de que muitos dos meus genes estão sendo ligados e desligados de um modo muito mais acentuado do que os do meu irmão na Terra. São coisas interessantes para uma investigação mais profunda. Mas, do jeito como a ciência funciona, especialmente a ciência da Nasa, a partir do momento em que se coletam os dados, levam de três a cinco anos para publicar. Então ainda estamos no processo de publicação dos resultados.

Quando você estava na faculdade, ler o livro The Right Stuff, de Tom Wolfe, lhe deu um objetivo na vida. Para mim, como jornalista, foi incrível saber que nosso trabalho pode tocar uma pessoa tão profundamente. Estou curioso sobre a ligação que você fez para Tom Wolfe da EEI. Do que vocês falaram? Como ele reagiu?
Primeiro, eu mandei a ele um e-mail, arrumei o endereço. Ele respondeu em um estilo bem Tom Wolfe, com algumas palavras que não existiam e algumas pontuações interessantes. Depois, dei seguimento com um telefonema. Falamos principalmente sobre como é estar no espaço. Ele ficou empolgado por falar comigo. Conversamos sobre a estação espacial, o lançamento, o pouso. E claro que contei o quanto o livro dele me inspirou.

No tempo em que estive no espaço, pensava que escreveria um livro algum dia, então quis saber como ele chegou ao título The Right Stuff. Ele me revelou que um amigo seu estava passando pelo processo de tornar-se policial na época em que ele estava fazendo pesquisas para o livro. Enquanto conversavam sobre ser policial, Tom disse a ele que tinha muito respeito pelo trabalho dos policiais e agentes da lei, porque há muitos riscos envolvidos nesses ofícios. E ele disse:  “Quer saber? Esses são os caras com a coisa certa”. Foi daí que veio o título.

Na cúpula da ISS, Scott Kelly observa as Bahamas, ponto do planeta que ele mais gostava de ver do espaço (Foto: Divulgação/Nasa)

 

 

 

 

Tom Wolfe lhe deu algumas dicas práticas de escrita? Como você planejou seu livro? Manteve um diário de bordo enquanto estava na estação? 
Sim, no espaço eu escrevia em um diário. Quando voltei, almocei com Tom Wolfe um dia e falamos um pouco sobre isso. Ele me deu algumas recomendações, como fazer o esboço da história — falou que isso é muito importante. Também me sugeriu estipular uma meta todos os dias que eu planejasse escrever: se fosse escrever mil palavras naquele dia, que eu tentasse me manter no prazo. Perguntei como ele escrevia. “Como assim?”, questionou. Em um iPad, computador? E ele me contou que escreve com um lápis (risos).

Em muitos momentos do livro você diz que a estação é bem mais que um laboratório espacial: é também onde velhos inimigos se aliam para trabalhar juntos em algo grande, por todos nós. Como você acredita que esse empreendimento vai ser lembrado daqui a cem anos?
Espero que exatamente da forma como você descreveu, um lugar em que antigos inimigos puderam trabalhar juntos, de forma pacífica e cooperativa, por algo que é importante para todos nós. E também espero que não seja o fim, mas só o começo desse tipo de cooperação, porque precisamos disso para nos aventurar cada vez mais longe no espaço.

Recentemente, o governo Trump mudou o foco da Nasa de Marte para a Lua. Esse é um movimento acertado na sua opinião?
Sou um grande crente de que, em um mundo perfeito, nós voltaríamos à Lua e lá praticaríamos como ir para Marte, viveríamos na Lua por um período mais longo. Mas nós vivemos em tempos muito difíceis financeiramente, e em outras esferas também (risos). Não temos uma quantia ilimitada de dinheiro, e essas coisas são caras.

Para ser honesto, eu não sei qual é a resposta certa. Por um lado, penso que a Lua seja um ótimo lugar para treinar como ir a Marte. Por outro, não temos tanto dinheiro assim. Acho que mais importante do que o destino que escolhermos é escolher um destino — e então se agarrar a ele. Não mudar os planos toda vez que tivermos um novo presidente nos Estados Unidos. Porque não é bom para uma organização como a Nasa ficar mudando de direção e desperdiçando dinheiro. Os parceiros internacionais não estão elegendo um novo presidente, então creio que, para ter uma parceria internacional boa e forte, é preciso ser consistente entre um governo e outro.

Esse interesse renovado pela Lua deu início a conversas entre a Nasa, a Roscosmos e outras agências visando a construção de uma “EEI” na órbita da na década de 2020. Como seria estar a bordo de uma estação dessas?
Você não poderia voltar tão rápido em caso de uma emergência. Além disso, os atrasos de comunicação não seriam tão longos, então ainda seria possível manter uma conversa pelo telefone. A estação poderia ser reabastecida com suprimentos, mas seria mais complicado. Ir até a Lua não é como ir até a órbita terrestre baixa... Mas ainda haveria essa possibilidade, ao contrário de Marte, onde não seria tão fácil [receber suprimentos]. Há algumas diferenças [entre a EEI e o projeto para a órbita da Lua], mas não acho que sejam tão grandes quanto as pessoas possam imaginar.

A estrutura bilionária da EEI realmente deve ser abandonada e destruída depois de 2024? Vendê-la a uma empresa lhe parece boa opção?
Se você conseguir achar uma empresa para comprá-la, certamente (risos). Por que não? Seria algo caro de operar. As empresas têm algum tipo de plano de negócios, e quando seu investimento é de bilhões de dólares, elas precisam de algum retorno a curto prazo. Não sei, talvez seja possível.

Ainda há poucas mulheres na exploração espacial: apenas uma esteve com você na estação durante a jornada de um ano. Enxerga isso como um problema? Falta mais estímulo para mulheres no programa espacial?
Acredito que o programa espacial deva espelhar a demografia do seu país. É o mais justo. Se 51% da população dos Estados Unidos são mulheres, então 51% dos astronautas deveriam ser mulheres. Inclusive, houve uma classe de astronautas há algum tempo que era metade de mulheres, metade de homens. É um bom passo nessa direção.

As Bahamas eram seu lugar favorito da Terra para ser observado em órbita. Alguma vista do Brasil chamou sua atenção no espaço? 
Certamente a costa brasileira. O problema com os países muito verdes é que a cor verde não é transmitida tão bem pela atmosfera. Não tão bem quanto o azul das águas tropicais ou o laranja, vermelho e amarelo dos desertos. É por isso que você nem sempre ouve falar que a parte leste dos EUA é tão bonita do espaço, ou a Europa ou certas partes da América do Sul. Porque são muito verdes. Consigo me lembrar de olhar para o Rio de Janeiro, para São Paulo, de como eram incríveis as águas ao longo da costa com as cidades. A Amazônia também. É um lugar muito bonito, espero ter a chance de visitá-la um dia.

Selfie espacial (Foto: Divulgação/Nasa)

 

Acredita que nos próximos anos, com o turismo espacial, ter mais gente contemplando a Terra do espaço vai mudar a mentalidade das pessoas?
Acredito que sim. Essa experiência realmente proporciona uma perspectiva única, privilegiada de olhar para a Terra, contemplar o que temos e saber quão especial é o nosso planeta. Talvez as pessoas passem a cuidar melhor dele, a considerar trabalhar juntas para o bem comum.

Antes de publicar suas memórias nesse livro, você foi nomeado como “Campeão do Espaço” pelas Nações Unidas. O que tem feito ultimamente e quais são seus planos futuros?
Tenho promovido bastante o livro desde que ele foi lançado, em outubro [nos Estados Unidos]. Faço algumas palestras abertas ao público, estou trabalhando em uma versão de Endurance para leitores jovens, em um livro de fotos. Imagino que neste ano terei de começar a pensar mais a longo prazo — que tipo de trabalho vou fazer diferente do que estou fazendo agora. Não sei, talvez eu fique satisfeito como estou agora, mas não espero por isso.

Recentemente publicamos uma petição para chamar a atenção de grandes empresas espaciais. Queremos que, quando seus negócios de turismo espacial estiverem funcionando, elas lancem terraplanistas notórios ao espaço...
(Muitos risos) Ótima ideia! (mais risos)

... Para que eles vejam quão redonda é a Terra. Pode mandar uma mensagem para os terraplanistas? o que diria a eles alguém que viu o formato do nosso planeta por tanto tempo?
Sabe, faço piadas com eles ocasionalmente. Penso que muitos desses terraplanistas fazem isso por diversão, porque é divertido, não acho que eles realmente acreditem que a Terra seja plana. Deve ser como uma grande piada para eles.

Mas acho que muitos deles acreditam, sim, que a Terra é plana. Então, quando esses teóricos da conspiração questionam um dos princípios mais básicos da ciência, que está por aí há centenas e centenas de anos, o fato de que vivemos em um planeta que é redondo, que orbita o Sol em um Sistema Solar que está numa galáxia, que está num Universo... Quando questionam esse fato científico básico, então questionam todos os outros tipos de ciência, como a mudança climática. Isso é muito perigoso.

Eu diria a eles que, se realmente acreditam que a Terra é plana, comecem a andar em uma direção e, quando chegarem ao precipício, tirem uma foto dele e mandem para mim. Suspeito que os terraplanistas nunca vão tirar essa foto e que vão ficar andando em círculos pelo resto da vida (risos).

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Fonte: Revista Galileu



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