SAÚDE

O que é o Transtorno de Processamento Sensorial?

POSTADO EM: Domingo, 15/04/2018, 10:23:56
ATUALIZADO EM: 15/04/2018, 10:23:56

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Divulgação

A aversão ou incômodo gerado por alguns tipos de sons ou a resistência ao contato de diversas texturas como areia, grama e até mesmo pessoas podem significar a ocorrência do chamado Transtorno de Processamento Sensorial (TPS). O transtorno é uma desordem neurológica em que os sistemas sensoriais têm dificuldade na assimilação e no processamento das informações provenientes do meio externo e do nosso próprio corpo, de forma que o indivíduo responde de forma inadequada edesorganizada ao meio. 

A terapeuta ocupacional Laila Pinto Cardoso explica que as informações do meio externo chegam de forma inadequada aos sistemas sensoriais das pessoas que possuem TPS. Como o corpo humano possui sete sistemas sensoriais, o transtorno pode interferir de diferentes formas na vida da pessoa. “Os sistemas sensoriais são a visão, audição, olfato, tato, paladar, o sistema proprioceptivo e o sistema vestibular”, enumera. “O sistema proprioceptivo e sistema vestibular estão relacionados à percepção do corpo no espaço, tônus muscular e equilíbrio”.

Laila explica que todas as pessoas podem apresentar algum incômodo sensorial – como, por exemplo, pessoas que se incomodam com uma etiqueta na roupa ou com determinados tipos de tecido, ou mesmo pessoas que não aceitam determinados tipos de textura ou alimentos. O problema se dá quando esses incômodos se tornam tão intensos que passam a prejudicar o cotidiano do indivíduo. “É considerado como um transtorno sensorial quando o incomodo ou reação negativa acontece de forma contínua, de modo a prejudicar as atividades de vida diária, interação social, habilidades motorase atividades acadêmicas”. 

A terapeuta ocupacional destaca que qualquer pessoa pode apresentar TPS, porém, é bastante comum em crianças com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Distúrbios da Fala e Linguagem, síndromes genéticas, atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor, entre outras. “Cerca de 80% a 90% das crianças que possuem transtorno do espectro autista também possuem transtorno de processamento sensorial”.

Para exemplificar as características que podem indicar a ocorrência de TPS, Laila aponta algumas situações com as quais trabalha. “Têm crianças que colocam as mãos sobre os ouvidos diante de determinados sons, como de liquidificadores, fogos de artifício ou barulho de trânsito ou reagem de forma mais intensa emocionalmente ou agressivamente ao toque. Nesses casos, a criança é hiper-responsiva a um estímulo”. 

Na situação inversa, pode haver casos de pessoas que em determinado momento podem ignorar um barulho alto ou não responder ao seu nome e também, sentir necessidade incomum de tocar certas superfícies, texturas brinquedos e até mesmo outras pessoas – nesse caso, elas apresentam comportamento hipo-responsivo. “Algumas dessas crianças sentem necessidade de bater a mão ou objetos no chão a fim de provocar sons para que possam escutar eassim se regularem.”

Tais tipos de comportamento, muitas vezes, podem acabar sendo erroneamente interpretados como ‘falta de educação’, mas, na verdade, são provenientes da necessidade ou da sensibilidade a determinado estímulo. “No caso de crianças que sentem a necessidade de provocar ou procurar sons, trabalho com músicas, oferta de instrumentos musicais para que elas tenham acesso a um estímulo mais funcional e assim possam diminuir comportamento inadequado, através de regulação”, conta Laila.

A terapeuta explicou ainda que adultos que não foram diagnosticados na infância podem apresentar problemas com organização diária, dificuldade de concluir projetos, dificuldade de realizar atividades com mais destreza ou que envolvam mais habilidade, como a dança, problemas na interação social e contato físico. Neste caso, o acompanhamento pode focar no consultório e também na proposta de uma dieta sensorial, que consiste em um programa de atividades sensoriais planejadas e programadas que inclui uma combinação de alertas, calmante e organização de atividades.

Para entender melhor os comportamentos que podem ser apresentados e os diferentes tipos de TPS, o DIÁRIO organizou um infográfico com base nas informações repassadas pela terapeuta ocupacional Laila Pinto Cardoso.

TRANSTORNO DE PROCESSAMENTO SENSORIAL

TIPOS

O transtorno de processamento sensorial se divide em três outros tipos de transtornos:

Transtorno de modulação sensorial - refere-se à dificuldade de regular e organizar as respostas do estímulo sensorial. A pessoa pode ter uma hiper-resposta ou uma hipo-resposta ao estímulo recebido.

PESSOA HIPER-RESPONSIVA: o estímulo chega até o indivíduo de uma forma que gera incômodo. São casos de pessoas que se incomodam com certos tipos de sons; ou que possuem sensibilidade tátil e não aceitam certos tipos de roupas ou resistem a alguns tipos de toque; ou mesmo pessoas que se desorganizam diante do excesso de estímulos visuais.

PESSOA HIPO-RESPONSIVA: é quando o contrário da hiper-responsiva ocorre, quando o indivíduo responde muito pouco aos estímulos. Os estímulos (sejam visuais, táteis, auditivos, gustativos, etc) chegam até a pessoa, mas ela mantém um comportamento passivo.

Transtorno de discriminação sensorial - refere-se à dificuldade de interpretar as qualidades da informação sensorial.

TRANSTORNO DE BASE MOTORA

Dispraxia: a pessoa tem problema para idealizar, planejar, dar sequencia e executar ações motoras novas. São consideradas “estabanadas”, desorganizadas no que diz respeito à condição motora. 

Controle postural: as pessoas que apresentam dificuldade de manter a postura e o controle postural, devido a problemas sensoriais. 

CARACTERÍSTICAS

Algumas características podem ser percebidas desde os primeiros meses de vida, como no caso de bebês muito irritados, ou que não aceitam roupinhas porque se sentem incomodados.

Porém, normalmente o transtorno fica mais evidente quando a criança já iniciou a vida escolar, por volta dos dois anos. Em alguns casos, a criança começa a rejeitar a alimentação (o que pode sinalizar, por exemplo, uma recusa ou seletividade alimentar devido a não aceitação de algum tipo de alimento, seja por causa da textura, do sabor, da temperatura, da cor); em outros, a criança pode se isolar na escola; ser pouco colaborativa; não atender a comandos por não entendê-los; apresentar resistência ao toque de pessoas ou não querer ter contato com elementos como a areia, a grama, massinhas, etc.

DIAGNÓSTICO

Inicialmente, é realizada a coleta de dados a partir do relato do histórico da criança feito pela família. Após este momento, são aplicadas avaliações estruturadas e não-estruturadas de funções sensoriais, motoras e de práxis. A avaliação é realizada no estúdio de integração sensorial, que é um espaço rico em equipamentos, materiais e brinquedos que devem estar de acordo com os interesses da criança. Além do estúdio de integração sensorial, pode ser necessário que o profissional observe a criança em casa ou na escola. A partir disso, é possível identificar que tipo de transtorno de processamento sensorial a criança apresenta.

Cabe destacar que o tratamento deve ser elaborado individualmente, e os equipamentos e o espaço terapêutico devem ser adequados às necessidades de cada paciente, levando em consideração a avaliação do perfil sensorial e comportamental da criança.

TERAPIA

A Terapia de Integração Sensorial é o tratamento mais adequado para casos de transtorno de processamento sensorial. A técnica é uma especialidade da Terapia Ocupacional (T.O.) e foi criada pela terapeuta ocupacional Jean Ayres, ainda em meados da década de 1960. A este acompanhamento realizado por profissional de T.O. certificado, devem ser aliadas outros acompanhamentos como fonoaudiológico, psicológico, etc.

O QUE PODE AFETAR?

VISÃO: A pessoa pode se desorganizar diante de muitos estímulos visuais, podendo ficar agitada ou ter dificuldade em manter a atenção concentrada. A criança pode se cansar facilmente ou ficar irritada quando realiza atividades visuais complexas, como quebra-cabeça, escrita, retirada de conteúdo do quadro. Pode apresentar, ainda, dificuldade de brincar com o colega porque não consegue se organizar para pegar uma bola que chega até ela. Pode apresentar, ainda, dificuldade de manter contato visual, etc.

AUDIÇÃO: Pessoas que possuem dificuldade no processamento das informações não conseguem se organizar para dar uma resposta adequada ao estímulo auditivo que chega a ela, o que faz com que ela dê uma resposta inadequada ou mesmo não dê resposta. Já para as que possuem dificuldade de modulação, o estímulo auditivo chega de forma incômoda. Um exemplo é a sensibilidade ao ruído de um liquidificador. Para pessoas que possuem dificuldade de modulação, aquele barulho pode ultrapassar o limiar aceitável para ela e gerar irritação. Por causa disso, há casos em que a criança recorrentemente coloca as mãos sobre os ouvidos ou chora diante do barulho. Os ruídos podem ser diversos, como latidos de cachorros, barulho de trânsito, fogos de artifício, eletrodomésticos, buzinas, etc.

PALADAR: Nesses casos, é necessário verificar o que a criança não aceita. Ela pode ser sensível à consistência (dura, mole, melada, líquida), a sabores (doce, salgado, azedo), a temperaturas (frio, quente). É necessário fazer um levantamento para identificar o que está prejudicando a alimentação. Em algumas situações, a criança só aceita se alimentar de um tipo específico de alimento, como biscoito ou pão, por exemplo.

TATO: Crianças que são hiper-responsivas para o tato não aceitam pegar texturas como massinhas, tinta, areia, etc. Tal dificuldade pode afetar o desenvolvimento da coordenação motora fina e o próprio desenvolvimento escolar. Já as hipo-responsivas buscam colocar a mão e sentir tais texturas, porém, de forma já exagerada.

PLANEJAMENTO MOTOR: O indivíduo pode ter dificuldade de idealizar uma ação motora. Quando uma pessoa fala para que ele “pegue a bola e jogue no cesto”, a pessoa até entende o comando, mas tem dificuldade de idealizar como pode fazer isso. Ela não consegue planejar o caminho que precisa fazer para chegar ao objetivo. Essa condição envolve o sistema proprioceptivo – que diz respeito à percepção do corpo no espaço. Quando esse sistema está muito comprometido, o indivíduo não consegue se organizar no espaço. Já quando o comprometimento está no sistema vestibular, as pessoas têm dificuldade de equilíbrio, não conseguindo se organizar em um balanço ou apresentando dificuldades de subir uma escada, etc.

(Cintia Magno/Diário do Pará)



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