DOIS LADOS DA MOEDA

Antônio Lemos: do legado de obras e urbanização às denúncias de corrupção

POSTADO EM: Sexta-Feira, 12/01/2018, 08:21:02
ATUALIZADO EM: 12/01/2018, 08:21:02

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Mauro Ângelo/Diário do Pará

Não há como negar que Antônio José Lemos deixou um legado em Belém. Mas que isso: estrategista, no final do século 19 ele foi um homem à frente de sua época e fez das circunstâncias seu nome, que ecoa até hoje à sombra das construções dos mais importantes patrimônios históricos de nossa cidade.

No cargo de intendente –hoje prefeito- da capital paraense, entre 1897 e 1912, o político e jornalista, aproveitou o apogeu econômico da borracha, a imprensa e a disputa entre os regimes da Monarquia e República para tornar Belém o cartão postal da Amazônia. E conseguiu. No entanto, seu governo terminou em escândalo de corrupção. E, pelo próprio povo, foi convidado a se retirar da cidade.

A Paris n'América de Lemos era proibida à população mais pobre. (Foto: Divulgação

Maranhense, ele chegou à capital do Pará como jornalista aos 24 anos. Devido às suas habilidades com a escrita, Lemos conquistou um emprego no jornal A Província do Pará. De repórter ele chegou a dono do periódico assim que o proprietário, Dr. Assis, morreu. “A história mostra que ele tem uma participação na imprensa muito forte, e dela, começou a se mobilizar politicamente”, detalha o historiador Michel Pinho.

CONQUISTAS

Lemos passou a conquistar a sociedade paraense e transformou o seu jornal no terceiro maior de circulação do País naquela época. “Foi com o veículo que ele ganhou destaque, pois apoiava a proclamação da República. O jornal o autopromovia”, conta Pinho. Assim, aos 54 anos, o maranhense conquista o cargo de intendente de Belém, substituindo Antônio Joaquim da Silva Rosado. “Lemos estava no local certo, na hora certa e tinha dinheiro para chegar ao cargo”, lembra o historiador.

Praça Batista Campos é outro exemplo da urbanização da época. (Foto: Ney Marcondes/Diário do Pará)

PROBLEMAS SOCIAIS ERAM MAQUIADOS

Hábil, nos seus seis anos de governo, ele também soube se prevalecer do momento. Com muito dinheiro vindo da exportação da borracha, na Belle Époque, Lemos fez o centro de Belém e a diagramação da cidade que conhecemos até hoje. Entre suas obras, estão o complexo do Ver-o-Peso, o Teatro da Paz, a Praça da República, Batista Campos, o Asilo Dom Macedo Costa (atual Colégio Militar de Belém), na avenida Almirante Barroso. 

“Lemos fez apenas o centro, e o tornou o cartão de visita de Belém, com as construções inspiradas na Europa, e vendeu isso para o mundo, e, então, ficou conhecida como Paris n’América”, relembra o historiador. No entanto, os problemas nas periferias continuavam, e a população mais pobre foi afastada do miolo de Belém, com algumas pessoas internadas no asilo feito por ele. “Os problemas sociais ainda existiam, mas eram maquiados. Uma cidade europeia não poderia ter mendigos na rua”, observou. Como político, Lemos continuou como dono do jornal, e, dele, fortaleceu sua imagem diante às suas construções. “Os jornalistas escreviam apenas coisas boas sobre ele. Fez do veículo sua própria assessoria de imprensa. E, são esses registros que temos de Lemos”, conta Pinho. No entanto, o intendente tinha como rival o periódico a Folha do Norte. 

Complexo do Ver-o-Peso é outro legado do intendente. (Foto: Wagner Santana/Diário do Pará)

DEClÍNIO

Mesmo com todo o legado, o final de sua carreira política foi marcado por escândalo de corrupção. A partir de 1910, o valor da borracha diminui, e daí, o declínio econômico da cidade. Foi então que, a oposição aproveitou para acusa-lo de desvios de recursos públicos. Um ano após sair de Belém, ele morreu, em 1913, no Rio de Janeiro.

(Roberta Paraense/Diário do Pará)



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