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Depressão Pós-Parto não é frescura: entenda as causas e saiba como tratar!

POSTADO EM: Quinta-Feira, 20/09/2018, 10:44:49
ATUALIZADO EM: 20/09/2018, 12:20:39

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Arquivo Pessoal

“Eu não conseguia ficar feliz. Eu não sentia vontade de viver. O choro dela soava como obrigação e eu estava farta. Me sentia sozinha e sempre cansada”. O relato desconfortável para algumas pessoas é de uma mãe que sofreu com depressão pós-parto.

A depressão pós-parto (DPP) está longe de ser incomum. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/RJ), feita com cerca de 24 mil mulheres de todo o país, apontou que o quadro de depressão pós-parto compromete 25% das mães brasileiras.

Especialista explica os principais causas, sintomas e tratamento da DPP. (Foto: Arquivo Pessoal) 

Segundo Vânia Celedonio Ortiz, especialista em Terapia de Casal e Família e trabalha com a Terapia Cognitivo-Comportamental, dentre os principais sintomas da depressão pós-parto estão tristeza constante, sentimento de culpa por ter tido a criança, baixa autoestima e infelicidade.

“Teoricamente a mãe deveria estar se sentindo feliz, mas se sente culpada por não está sentindo toda essa felicidade e gratidão com o bebê. Um cansaço extremo, pouco interesse pela criança, uma vontade rebaixada de cuidar tanto de si quanto do bebê, medo de ficar sozinha, falta de apetite, falta de prazer nas atividades que antes eram rotineiras, além da dificuldade de dormir”, explica.

A estudante de psicologia Letícia Freitas, de 21 anos, vivenciou tudo isso na sua primeira gestação, após o nascimento da filha Maria Clara Freitas, hoje com 1 ano e 7 meses.

“No dia seguinte que a minha filha nasceu, ainda internada no hospital, eu chorei, eu chorei muito e era dor que eu não conseguia explicar. Chegamos em casa e toda a atenção era somente para ela, as visitas não se importavam com meu bem estar, apenas com a Maria Clara que tinha acabado de nascer. Nesse tempo eu não dormia, não conseguia fazer nada por mim e não conseguia amamentar, tive muitas dificuldades e ninguém esteve presente além do pai da Clara”, relembra Letícia.

Letícia teve depressão pós-parto na gestação e compartilha tudo o que passou. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em meio a tanto desespero, a estudante encontrou ajuda em grupos nas redes sociais. “Vi uma postagem no Facebook que tínhamos que falar sobre isso. E fiz um desabafo anônimo. Dias depois, uma psicóloga me respondeu e conversamos e ela foi me ajudando aos poucos até eu conseguir ir em um psicólogo e iniciar a terapia”, revela.

Como a maioria dos transtornos psiquiátricos, a depressão pós-parto ainda carrega o estigma de tabu. A crítica de quem está de fora e preconceitos dificultam a busca por ajuda.

A especialista em Terapia de Casal e Família explica que o padrão de felicidade constante inalcançável faz com que a mulher vele a dor. “É difícil dividir esse momento porque o que nos é ensinado é que o nascimento de uma criança é de extrema felicidade e é de fato, mas parece que se resume só a felicidade e a gente esquece que existem outras emoções envolvidas. Tem o estresse, tem a tristeza, tem o cansaço e depois você se sente culpada porque parece que você tem que ter uma energia infinita para lidar consigo e com a criança e essa é uma meta inalcançável. E quando você percebe que não consegue, aí vem aquele sentimento de frustração. O padrão social nos ensina que a gente tem que estar sempre muito feliz, muito disposta, muito alegre”, explica.

Segundo Vânia, além das mudanças hormonais, a autoestima da mulher que precisa lidar com as mudanças corporais vindas da gestação e as responsabilidades quem um recém-nascido traz, há também alguns fatores agravantes à depressão pós-parto, que acontece em mulheres de todas as idades e classes sociais.

“Tem tanto a história de depressão pós-parto anterior, quanto a depressão anterior durante a gravidez, transtornos bipolares ou histórico familiar de depressão ou transtorno bipolar”, aponta a especialista.

Em que momento buscar ajuda?

A depressão pós-parto acontece em diferentes intensidades. Em alguns casos, a DPP pode ser revertida com algumas mudanças de hábitos, no entanto, há aqueles mais graves com sinais de agressividade, ataques de pânico, pensamentos sobre suicídio ou sobre machucar o bebê, dentre outros.

A psicóloga ressalta a importância de buscar ajuda com um especialista o quanto antes, já que o diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento ocorra da melhor maneira possível, prevenindo maiores danos à mãe e ao bebê.

“A pessoa precisa procurar um profissional quando começa a perceber que não consegue lidar com essa questão sozinha, que essa questão está afetando outras áreas da vida, como casamento, família e amizade. O tratamento existe e é muito eficaz. Ele envolve psicoterapia para poder trabalhar essa questão do pensamento, das emoções, do comportamento e, se necessário, fazer uma intervenção medicamentosa para ajudar a lidar com essas oscilações hormonais, fisiológicas e bioquímicas”, orienta.

Foi o que a mãe da Maria Clara Freitas fez. Letícia aceitou que precisava de ajuda e que não iria conseguir enfrentar a depressão pós-parto sozinha.

“Foi uma fase de aceitação que eu precisava de ajuda. Fui procurar cuidar de mim comecei a fazer uma atividade física, comecei a ler, comecei a fazer coisas que me fizessem bem e, principalmente comecei a falar o que eu sentia. Eu senti um peso muito grande na maternidade, eu era muito julgada e ainda sou. Ouço muito que a responsabilidade é da mulher por ser mãe. Recentemente eu ouvi que não posso sair, que eu não posso me divertir, que eu não posso cuidar de mim porque eu sou mãe, que eu escolhi isso. É muito complicado você não ter uma rede de apoio”, lamenta a estudante.

Sofrimento não é só materno

Apesar do nome “pós-parto”, os sintomas da DPP podem começar ainda na gestação. Por isso, a família é parte fundamental no processo de reconhecimento da doença, podendo ajudar no apoio para que a mulher compartilhe o que está sentindo e na identificação das alterações de comportamento.

As consequências da depressão pós-parto não afetam apenas as mães. Os filhos também sofrem e os prejuízos vão além dos primeiros meses de vida. Um estudo publicado no JAMA Psychiatry apontou que as crianças mais propensas a desenvolverem transtornos psicológicos e problemas comportamentais durante a infância são aquelas cujas mães apresentaram sintomas de DPP.

Um artigo divulgado na revista Clinical Obstetrics & Gvnaecologv revelou que significativas alterações no desenvolvimento neurológico e cognitivo que pode acompanhar os pequenos até a adolescências.

“Quando eu engravidei, logo nos primeiros três meses tive indícios de depressão. Eu me sentia mal fisicamente e só tinha pensamentos ruins. Não saia da cama e só chorava. Um dia, na consulta do pré-natal, pedi a minha obstetra para me encaminhar a um psicólogo e ela me perguntou o motivo. Expliquei a situação e ela soltou tudo que pensava sobre o assunto. Me disse que eu tinha que crescer e parar de tentar chamar a atenção das pessoas, de choramingar por tudo. Que eu não estava brincando de boneca e ninguém iria se importar comigo depois do bebê nascer. A partir desse dia eu piorei por acreditar que ninguém se importaria comigo”, relembra Letícia.

Letícia contou com a ajuda do pai de Maria Clara e com uma rede de apoio na internet para lidar com a DPP. (Foto: Arquivo Pessoal)


Foi no pai da Maria Clara que Letícia encontrou sua principal fonte de apoio. “Ele via o meu sofrimento e ele foi a pessoa que me ajudou a vencer toda essa fase junto com a ONG. Hoje eu estou muito melhor, consigo falar sobre esse assunto com leveza. Participo da ONG e também ajudo outras mulheres que passam por esse tipo de problema e por tantos outros. Me envolvo com a área do meio materno, faço parte de um grupo chamado ‘Rede Maternar’, apoio causas e defendo o acolhimento livre de julgamentos”, comemora a estudante.

Segundo a psicóloga, a cada quatro mulheres, uma tem depressão pós-parto. Uma maneira de ajudar quem está enfrentando a depressão pós-parto é se colocar na situação e debater de maneira aberta sobre o assunto.

“A gente pode ajudar a mulher compartilhar o que está sentindo, educando mais as pessoas a respeito do tema, inclusive, entrevista como essa ajuda muito nesse sentido. Falar desses números, das estimativas e que é mais comum do que se possa imaginar é uma forma de fazer com que essa mulher se sinta acolhida e saber que ela não está sozinha nessa. É ter um olhar mais empático, de conseguir se colocar no lugar e fazer com que se sinta mais à vontade para poder falar sobre isso de maneira mais aberta”, destaca Vânia.

Depressão pós-parto em homens?

A DPP não é exclusividade das mães. Um estudo da Suécia apontou que homens tem sofrido com a transição para a paternidade nos últimos 10 anos. De 447 pais pesquisados, 28% apresentaram depressão de grau leve e 4% de grau moderado, com sintomas como raiva, irritação, trabalho excessivo e alto consumo de álcool.

“Há aquele preocupação excessiva com o futuro daquela criança, aquela sensação de se vai dar conta, porque no início a criança é completamente dependente para tudo e dá aquela impressão de que vai ser assim para sempre e não é, você está formando uma pessoa, inclusive para se tornar independente. Existe mudanças drásticas de humor porque a pessoa não sabe lidar com a mudança de rotina, vem a criança chorando, perde a paciência, não consegue se acalmar, se sente culpada e isso gera conflitos entre o casal, desmotivação, falta de ânimo, de energia e tudo isso a gente trabalha na terapia. A questão de é claro que você vai dar conta, você já deu conta de coisas muito piores e conseguiu vencer”, explica.

E você, internauta, o que acha sobre o assunto? Conhece alguém que enfrenta ou já teve depressão pós-parto?

Reportagem: Andressa Ferreira/DOL

Coordenação: Enderson Oliveira/ DOL

Multimídia: Gabriel Caldas/DOL



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