CLAYTON MATOS

Leia a coluna 'Bola Pro Matos' desta quarta-feira (08): O homem que desafiou a lógica

POSTADO EM: Quarta-Feira, 08/08/2018, 08:13:51
ATUALIZADO EM: 08/08/2018, 09:15:35

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Fábio Will/Remo

Com mais de 80% de chances de voltar à insólita Quarta Divisão, o Remo já estava praticamente com a tampa do caixão fechada. Nem todos os torcedores acreditavam numa reviravolta, ou num milagre há alguns meses do Círio. Boa parte da crônica local, onde me incluo, vaticinava o rebaixamento iminente, que acabou não acontecendo não por um desses caprichos do futebol, mas porque colocaram, por vias tortas, a pessoa certa no lugar adequado. Nem Givanildo ou Artur, bastante badalados e idolatrados pela torcida, conseguiram o que o jovem e desconhecido Netão atingiu: dar alma a esse time.

Mais do que isso, fez essa equipe jogar não só com o coração, mas com organização. É bem típico do profissional que está ali, prestando atenção a tudo, assimilando tudo o que aprendeu fora das quatro linhas, esperando pelo grande momento. Netão, como muitos trabalhadores de diversas áreas da sociedade, que não dispõe das mesmas condições de gestores ou profissionais mais experientes e estrelados, imprimiu sua filosofia sem alterar a voz, bater de frente ou abusar do emocional. Foi cirúrgico e técnico.

Sem muita rodagem e exercendo pela primeira vez o papel de treinador de um time de futebol profissional, Netão fez jogadores criticados darem a volta por cima. No jogo mais decisivo da temporada, qual treinador ousaria escalar o irregular atacante Jayme como titular, quando todos sacramentam Dudu Pacheco como o parceiro de Eliandro? De todos os jogadores do elenco, Jayme era o menos recomendável a entrar em campo naquela altura da competição. Netão correu os riscos. E foi recompensado. O jovem remista se encheu de confiança, mesmo derrapando na própria partida, e acabou marcando o gol da salvação. Isso não acontece por acaso.

Há histórias e histórias no futebol com esse desfecho. Uma das mais emblemáticas aconteceu em 2006, na final do Mundial de Clubes, quando Abel Braga apostou suas fichas no improvável herói do Inter Adriano Gabiru, que nunca foi um primor de técnica. Mas todo comandante tem um sexto sentido aguçado, sabe quando é o dia do cara. E Netão, como Abel na final contra o Barcelona, tinha esse direito de arriscar. Não foi sorte ou providência divina. Vamos ficar com a intuição. E pra chegar a esse nível é preciso ter testado muitas opções, e em algum momento, ainda que na mente do treinador de 38 anos, havia uma estratégia de última hora, com o atacante contestado tendo boas chances de funcionar cumprindo um determinada função.

Netão estava certo. Ao contrário do que ocorreu em sua apresentação, quando esteve isolado praticamente, hoje é carregado nos braços dos mesmos cartolas que erraram com Artur e em certas contratações. Coisas do futebol, que Netão ainda verá com maior frequência. Hoje, podemos dizer que o Remo está nas mãos certas, de quem entende do riscado. Que gosta do solo em que está pisando, que sabe como extrair o melhor de seus comandados e que não permite ser consumido pela vaidade.



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