SEGREDO DA GENTILEZA

Olhar para o outro com empatia pode ajudar a mudar a sociedade

POSTADO EM: Sábado, 22/09/2018, 11:52:53
ATUALIZADO EM: 22/09/2018, 11:52:53

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Divulgação

O substantivo feminino “empatia” quer dizer se colocar no lugar do outro. Quando a pessoa possui esse atributo, busca agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias do outro. Foi a partir de uma experiência travestida de gentileza que surgiu a inspiração para o livro “Shinsetsu – O Poder da Gentileza”, do jornalista, filósofo, professor e consultor Clóvis de Barros Filho, que esteve em Belém para lançar a publicação.

Um gesto simples emocionou e contribuiu decisivamente na vida do autor, segundo ele conta. “O livro surgiu a partir de uma experiência vivida dentro de uma aeronave, onde eu estava indo de Tóquio para Pequim. Um passageiro japonês, depois da decolagem, vira para mim e pergunta se eu me incomodaria se ele reclinasse a poltrona. Eu, então, perplexo, disse que estava tudo bem. Ele não acreditou muito na minha sinceridade e não reclinou a poltrona. Assim, ele levou em consideração a minha comodidade e, em função disso se privou da sua, mesmo tendo o direito de recliná-la”, relata.

Graduado em Jornalismo, especialista em Direito Constitucional e em Sociologia do Direito, mestre em Ciência Política e doutor em Ciências da Comunicação, Clóvis de Barros Filho atuou como professor durante três décadas e escreveu 20 livros que falam, em sua maioria, sobre ética e felicidade, entre eles, o best-seller “A Vida que Vale a Pena Ser Vivida”.

“Tendo sido professor de Ética durante 30 anos e ensinado que Ética é a arte da convivência, a experiência vivida naquela aeronave teve sobre mim grande impacto. Desde então, decidi escrever o livro que falava dessa preocupação do cotidiano mais trivial, com a presença do outro”, diz. 

O termo “Shinsetsu” é de origem japonesa. De acordo com o autor, quer dizer ao mesmo tempo gentileza, amabilidade e respeito. “Trata-se de uma consideração pela presença do outro na hora de agir, de um cuidado, de um zelo para que a conduta não produza efeitos apequenadores e entristecedores a quem quer que seja”, pontua. 

No Ocidente, compara Clóvis, temos a palavra moral. “Shinsetsu tem muito a ver com moral porque nos dois casos trata-se de uma questão de consciência, de uma decisão livre, soberana de quem age, nada tem a ver com o medo de ser pego, flagrado, punido. Tanto no caso da moral, como em shinsetsu, a conduta não tem nenhuma expectativa de um ganho futuro. Assim, se você coloca a mala de uma pessoa no bagageiro por ela não alcançar o bagageiro, normalmente esse gesto vem seguido de um sorriso, de um agradecimento, mas pode não vir”, exemplifica. 

Se sua conduta tem por objetivo algum retorno simpático, não passa de investimento, de uma troca, de uma barganha. “Shinsetsu e moral não são isso. Você acha que deve fazer o que tiver de fazer por ter a certeza de ser aquela melhor iniciativa. Se houve ou não uma reação de gratidão é mesmo uma outra história”, explica.

Para o escritor, a falta de gentileza que hoje nos abate tem a ver com o fato de que somos adestrados a ir atrás do nosso sucesso, alcançar nossos objetivos, bater nossas metas. “Muitas vezes tudo isso requer certo desprezo pela presença do outro, que ora é entendido como obstáculo para nossa vitória, ora é entendido como instrumento para nossa vitória. Quando agimos em shintesu, o outro não é um obstáculo e nem instrumento, vale tanto quanto nós”. 

Para agir gentilmente, em shinsetsu, segundo Clóvis considera, é necessário que essa competência emocional seja exercitada dia após dia. “Esse zelo pela presença do outro requer um modelo particular de educação familiar e escolar, onde desde criança somos ensinados a não articular nenhuma estratégia pessoal que possa ser lesiva ou danosa a quem quer que seja”, pondera. 

A ética tão necessária nos nossos dias seria a luz que levaria todo o povo a um novo caminho. “Uma educação para uma vida gentil, amável e respeitadora poderia estar na origem de uma nova sociedade, que muitos no Ocidente denominariam de mais ética. Nessa nova sociedade, os problemas de relacionamento não estariam tão focados nas primeiras páginas dos jornais, nos grandes escândalos, nos grandes prejuízos à sociedade, mas no cotidiano mais simples, onde cada um com sua parte se empenharia para uma sociedade mais justa, mais harmônica e mais feliz”, defende o escritor.

(Wal Sarges/Diário do Pará)



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