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Paraense Filipe Nassar Larêdo estreia na ficção

POSTADO EM: Domingo, 08/07/2018, 10:23:21
ATUALIZADO EM: 08/07/2018, 10:24:14

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Divulgação

Acostumado a lidar com a vida literária de outros autores, enquanto editor, o paraense Filipe Nassar Larêdo descartava toda sorte de produção textual que vinha em sua mente, com histórias que nunca se concretizavam de forma satisfatória para que sua carreira como autor tivesse início. A sua função de coordenador editorial na Editora Empíreo, baseada em São Paulo, o fez ficar muito exigente com a própria escrita. Todo projeto de livro era engavetado. Até que num misto de devaneio e desejo, veio um insight: uma cabeça em uma cama.

Esse foi o ponto de partida para começar a escrever, dessa vez quase de uma tacada só, o livro “A Cabeça na Cama”, que conta a história de Tomás, um homem ambicioso que começa sua carreira profissional como bancário e depois torna-se um bem sucedido e rico gerente em uma empresa de investimentos financeiros. O livro, que já está em pré-venda em forma de financiamento coletivo pelo site Catarse, será lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, durante programação paralela na Casa Fantástica, a primeira iniciativa dedicada à fantasia e à ficção científica na Flip, onde Felipe também participa, como editor, da mesa “Editoras independentes: limites e possibilidades no mercado editorial brasileiro” . No começo de agosto, será a vez de lançar o livro em São Paulo e em setembro, Belém.

Com 142 páginas, a história deixa claro logo no começo que o protagonista não tem escrúpulos ou valores morais para conseguir engordar seus ganhos. Mas, trabalhando o dia inteiro, Tomás reconhece que pouco tempo tem para ficar com a família e, num determinado momento, decide fazer uma viagem de férias ao Nordeste, partindo da capital paulista de carro. Logo após sair da cidade, no entanto, ele recebe um telefonema de seu pai, com o qual havia deixado as chaves de seu apartamento, dizendo que encontrara a tal cabeça na cama. Atordoado, ele deixa a mulher e os filhos e volta para a sua residência para conferir o que estava ocorrendo.

“Daí, o protagonista começa a conversar com a cabeça e a tentar desvendar o que ela está falando, tentando entender o idioma e a mensagem e o porquê dessa cabeça surgir exatamente no período de descanso”, instiga Larêdo. A obra, com pitadas de nonsense e narrativa neofantástica, é veloz e prende o leitor na tentativa de desvendar essas questões. O prólogo, no qual o personagem conta o motivo de querer contar sua história, já está disponível na internet. Como referências para a escrita, Filipe - que é filho do escritor e pesquisador paraense Salomão Larêdo e tem vasto conhecimento de literatura - recorreu às memórias dos clássicos como “A Metamorfose”, de Franz Kafka, tragédias gregas de Sófocles e Eurípedes, e autores como os argentinos Adolfo Bioy Casares, autor de “A Invenção de Morel”, e Jorge Luis Borges, expoentes do realismo fantástico na América Latina. “Outra referência é um gênero que tem o narrador não confiável, como em ‘A Volta do Parafuso’, de Henry James, e ‘Dom Casdimurro’, do Machado de Assis. São histórias narradas em primeira pessoa em que não se tem clareza ou confiança sobre o que está sendo dito. Essa cabeça que surge na cama é um demônio? Pode ser, mas eu não disse nada disso. É o Tomás em estado de transe? Não sei. Ele é esquizofrênico? Também não te disse isso”, explica Filipe, atiçando ainda mais a curiosidade sobre a história.

Com vários questionamentos, o elemento principal da narrativa é justamente não trazer algo claro para o leitor e deixar que ele tire suas próprias conclusões - tal qual se Capitu traiu ou não Bentinho na famosa obra machadiana. “Deixo o leitor livre para seguir com a história e ir montando o que for do seu entendimento”, explica, sobre sua primeira obra.

REAL MÍSTICO

A ideia do real e do místico, da metáfora e da literalidade de uma cabeça na cama não está apenas no romance de estreia de Filipe Larêdo, mas também na sua própria relação com o mundo. O pai é profundo conhecedor do folclore e da cultura popular da Amazônia, de quem herdou a crença nos seres sobrenaturais que rondam o imaginário da nossa região. “Montei o esqueleto da história e levei um mês e meio para escrever, saiu como se tivesse surgido para mim. Um tio meu disse: ‘te deram essa história’. Gosto desse misticismo, de que alguém me entregou porque no outro dia eu sentei e fui escrevendo, era como se algo estivesse me cutucando e dizendo: ‘tens que contar história’. Segundo meu, tio foi essa entidade, um ser místico que desceu em mim. Eu creio nisso, só não sei nomear. Concordo com meu tio, pois já me sentei várias vezes para escrever histórias, mas nunca confiante”,revela. Filipe revela que resolveu publicar sua obra após ter enviado a versão beta para cinco pessoas, que fizeram suas considerações e retornaram com feedbacks positivos. O livro também veio num momento de muito estudo sobre o assunto, no mestrado em Literatura e Crítica Literária,na PUC-SP.

(Dominik Giusti/Especial para o Você)



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