TERRA PREMIADA

Fotojornalista do DIÁRIO Wagner Santana vence concurso de fotografia e expõe em maio

POSTADO EM: Quarta-Feira, 11/04/2018, 08:10:32
ATUALIZADO EM: 11/04/2018, 08:11:08

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Wagner Santana

A cexto capitular. A tropa de choque em formação para avançar. O conflito. A retirada de móveis e outros objetos. Situações de desespero e desorientação. Todas essas cenas foram captadas pelas lentes do fotojornalista do DIÁRIO Wagner Santana. Produzidas durante a cobertura jornalística da desocupação de um terreno no bairro do Jurunas, as imagens ganharam um nome cheio de nuances, “A Terra Prometida”, referência também ao nome da ocupação. As sutilezas captadas na história renderam a Wagner o prêmio principal no edital “Imagens Cotidianas - Incentivo Fotográfico 2018”, concurso lançado pelo Sesc Boulevard para incentivar a produção fotográfica paraense, e que ele divide com o fotógrafo Paulo Ribeiro, premiado com a série “Pira Água”. Além da premiação em dinheiro, as imagens serão levadas a uma exposição coletiva na galeria da instituição, a partir de maio, com entrada franca, por meio do Núcleo de Fotografia do Sesc Boulevard. 

Nesta primeira edição do concurso, a seleção foi realizada pelos fotógrafos Miguel Chikaoka e Maria Christina, que avaliaram os 30 portfólios inscritos levando em consideração os critérios propostos no edital: a originalidade, a capacidade de comunicação de uma informação/ideia ou história, a qualidade técnica e a unidade do conjunto apresentado, ou seja, a edição. Cada participante podia enviar entre 15 e 20 fotografias. Esse ponto, acredita Wagner, foi o mais desafiador. “É complicado fazer a seleção dessas imagens, contar essa história da retirada das famílias de forma enxuta e coerente”, diz, sem ter dúvida sobre o potencial das fotos. “Sabia que elas iam me render uma premiação. Eram muito fortes”.

"Essa foi bem forte para mim. Ela, assustada com as bombas e ainda tendo o cuidado com o animal dela”, Wagner Santana (Foto: Wagner Santana)

O fato de a comissão julgadora ser formada por Chikaoka e Maria Christina também foi motivo para comemorar. “Ter o meu trabalho julgado por dois especialistas tem um valor a mais. E tem a oportunidade de as pessoas verem a série como um todo na exposição”, festeja Wagner. 

Entre as imagens que julga mais impactantes, Wagner aponta aquela em que uma garota sai de casa aos prantos, com seu cachorro nos braços. “Na hora você não consegue avaliar, só quando senta depois, olha com calma as fotos. Essa foi bem forte para mim. Ela, assustada com as bombas (de gás), e ainda tendo a preocupação, o cuidado com o animal dela”, comenta.

Da terra ao rio que é quase rua

Imagens da série “Pira Água”, registrada por Paulo Ribeiro no Marajó e que também rendeu o primeiro prêmio no edital “Imagens Cotidianas” do Sesc. (Fotos: Paulo Ribeiro/Divulgação

Ainda na série “A Terra Prometida”, assinada por Wagner Santana, outra imagem traz ao fundo a cidade, o clima de conflito e carroças cheias de utensílios retirados às pressas das casas improvisadas. O fotógrafo conta que a situação de incerteza de duas meninas que ele captou na cena foi o que chamou sua atenção. “Elas parecem estar se perguntando ‘pra onde eu vou?’”. Há algo de muito simbólico no nome da própria ocupação, “Terra Prometida”, pontua o fotógrafo. “Quem prometeu isso pra eles? Quem garantiu que eles teriam um lar?”, reflete.

O fotógrafo já participou de duas coletivas no Sesc Boulevard: “Indicial”, em 2010, e “Sobrevidas”, em 2014. Volta com “A Terra Prometida”, em maio. “Eu acho legal o público ver todas as fotos juntas. Eu conto (a história) com início, meio e fim. Está enxuto, bem editado, você entende o que aconteceu ali (durante a desocupação)”, convida. 

Mas não só de cenas urbanas se fazem as “Imagens Cotidianas” selecionadas pelo Sesc. Professor da UFPA, arquiteto e urbanista, Paulo Ribeiro, também premiado no edital, é um apaixonado por fotografia. Na série “Pira Água”, ele traduz fotograficamente a relação entre as crianças e a água no arquipélago do Marajó. 

“Sempre me causava admiração a relação daquelas pessoas com a água, uma relação natural, que começa a se dar na infância. Sabe como a gente vê a história das tartaruguinhas que nascem e saem correndo pra água? Assim é com elas. Elas têm esse universo de recreação”.

O fotógrafo vem de uma exposição recente na Kamara Kó, também com uma série no Marajó. “Mas, embora tenha uma poética parecida, com pessoas muito presentes, essa, foca nas crianças”, compara. 

O primeiro contato de Paulo Ribeiro com a fotografia foi ainda nos anos 1980, por meio da Fotoativa, associação da qual já foiconselheiro. “A partir dali, eu também desenvolvi uma relação de afinidade com as pessoas que trabalham com fotografia aqui, um trabalho de altíssima qualidade, considerada no país todo”, elogia.

Ele conta que, com o surgimento de redes e plataformas como o Instagram, voltou a fotografar com mais frequência. Entre as 15 fotos selecionadas na premiação, apenas duas foram feitas com câmera profissional. “Antes você fotografava e a imagem só era vista por alguém mais próximo. Com essa possibilidade de estar em uma rede, tendo um comentário, uma crítica, me estimulou nos últimos quatro anos. Agora a gente anda com uma máquina fotográfica o tempo todo, o celular”, comenta.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)



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