AMAZÔNIA DOCUMENTADA

Professores da PUC-SP planejam parcerias para criar uma 'Sala Amazônica'

POSTADO EM: Segunda-Feira, 12/02/2018, 08:38:56
ATUALIZADO EM: 12/02/2018, 08:38:56

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Divulgação

O professor José Luiz Goldfarb, diretor da Educ, editora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acaba de partir de Belém, onde esteve para encontros de representantes do Centro Simão Mathias de História da Ciência (Cesima), também da PUC-SP, Arquivo Público do Estado do Pará e Museu Paraense Emílio Goeldi. O objetivo é firmar parceria com as duas instituições paraenses para que seja criada uma “Sala Amazônica” dentro do projeto da Biblioteca Cesima Digital, com materiais que documentam a Amazônia durante o período colonial e imperial do país.

Goldfarb explica que, com o apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da PUC-SP, o Cesima mantém o Centro de Documentação em Multimídia do qual faz parte a biblioteca virtual, com documentos impressos e manuscritos na forma digital, adquiridos a partir de pesquisa em acervos especializados, como os das instituições paraenses. 

“Tanto o Arquivo Público como o Museu Goeldi têm uma vasta documentação que retrata, desde os séculos 18/19, importantes viagens que pesquisaram a fauna e flora da região”, comenta Goldfarb. 

Além desse aspecto dos viajantes, a equipe que visitou Belém teve uma agradável surpresa. “O Arquivo Público tem uma documentação muito vasta da vida cotidiana de Belém, um exemplo magnífico são documentos sobre alguns eclipses da lua e do sol. Para nós, isso é bastante importante, e uma documentação muito bem preservada”, elogia.

O projeto da Biblioteca Cesima Digital prevê disponibilizar esse material – um conjunto de 300 documentos, segundo Goldfarb – para pesquisadores e leitores em geral, no mundo todo. “Vamos estabelecer parceria com bibliotecas dos Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra”, adianta o pesquisador. Há muito tempo pesquisadores da área tinham conhecimento da importância da região amazônica, em especial Belém, durante o período colonial, e os documentos seriam uma grande comprovação disso.

HISTÓRIA ILUSTRADA

Também parte da equipe que visitou a capital paraense, as professoras Ana Maria Alfonso-Goldfarb e Márcia Ferraz, coordenadora e vice-coordenadora do Cesima, respectivamente, explicam que boa parte dessa documentação estava relacionada à administração do Brasil Colonial e Imperial. “E além dos documentos administrativos, há documentos oficiais de reconhecimento da região, isso era algo obrigatório, guardado em arquivo tanto aqui como em cópias enviadas para Portugal. Alguns talvez até já tenham se perdido fora do país, enquanto em Belém foram realmente muito bem preservados e restaurados”, comenta Márcia.

Ana Maria destaca que Belém era particularmente um porto de saída e entrada do país, de grande relevância. “Tinha a questão da proximidade com a Europa, documentos que registram a observação do céu, das pessoas, animais, a saída e entrada estrangeira no porto, o tipo de plantações, formas de extração naturais. Tem memória sobre uma série de gomas e plantas locais que entrariam como substitutas de produtos europeus, inclusive. A maior parte dos brasileiros não tem ideia de tudo o que está aqui”, diz a pesquisadora. 

Boa parte desse acervo é composta por ilustrações e gravuras que retratam diversos temas, inclusive, máquinas para moagem de produtos agrícolas, espécies da flora e fauna e ainda o cotidiano da então colônia. “Há uma parte de botânica essencial, há registros do conhecimento e de técnicas das comunidades nativas da região, como eram os habitantes desde a época de Colônia. São desenhos, gravuras, bem preservadas, acompanhados de escritos importantíssimos”, adianta Ana Maria.

O historiador Nelson Sanjad, pesquisador do Museu Goeldi, Márcia Ferraz e Ana Maria Alfonso-Goldfarb, ambas do Cesima, Andréa Assis, chefe do serviço da biblioteca do Arquivo Público do Estado do Pará, e a bibliotecária Olímpia Reis Resque. (Foto: Divulgação)

Documento de 1767 sobre o eclipse solar, pertencente ao acervo do Arquivo Público do Pará, ainda em perfeito estado. (Foto: Divulgação)

PARCERIA

Os docentes foram recebidos pelo historiador Nelson Sanjad, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, pela chefe do serviço da Biblioteca do Arquivo Público do Estado do Pará, Andréa Assis, e pela bibliotecária Olímpia Reis Resque. Eles também visitaram o centro histórico e outros arquivos da cidade que possuem obras e documentos sobre a região, de interesse para o Cesima, cujo objetivo é promover estudos centrados na História da Ciência.

Após a visita a Belém, o Cesima inicia a parte mais formal, de elaborar um termo de parceria com o Museu Emilio Goeldi e o Arquivo Público, e “dentro de 30 a 60 dias, a documentação começa a ser incluída na biblioteca virtual”, afirma Goldfarb.

A equipe de docentes destaca a modernização do sistema de buscas da biblioteca, que será lançado nos próximos meses. “Ele tem recursos conceituais que facilitam, em qualquer lugar do mundo, o pesquisador encontrar os documentos que podem interessar, dentro do tema ou conceito que ele está buscando”, explica Goldfarb. 
Para a professora Márcia Ferraz, a forma como as instituições paraenses catalogaram seus acervos já será de grande ajuda nesse sentido. “A organização delas é muito boa, colocando um grupo de documentos de acordo com determinado tema, com descrição do documento e os trabalhos baseados neles. Para a busca, isso será muito importante”. 

Depois do passeio pela cidade, os três docentes saem encantados. Ana Maria diz que o Arquivo Público “mereceria uma visita de cada brasileiro, para saber o que é uma memória bem preservada”. Enquanto MÁrcia destaca a preservação do material naturalista e de pesquisadores feito pelo Museu Goeldi, “todos com uma riqueza que precisa ser aberta para o mundo”, declara. 

Goldfarb, que também é presidente da Cátedra de Cultura Judaica da PUC-SP, acrescenta que durante a excursão pela cidade ainda foi possível visitar a sinagoga de Belém. “Conhecemos famílias que sabem um pouco do histórico judeu na região, com inÍcio no Ciclo da Borracha, e foi mais um intercâmbio muito interessante”, finaliza.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)



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