OUTRO LADO DA MOEDA

Artistas criticam escolhas do Banco da Amazônia para patrocínios em 2018

POSTADO EM: Segunda-Feira, 08/01/2018, 10:36:28
ATUALIZADO EM: 08/01/2018, 10:41:45

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Cristino Martins/Agência Pará

O anúncio dos selecionados nos três editais de patrocínio do Banco da Amazônia para 2018 causou revolta por parte de alguns artistas, que este ano tiveram que disputar os recursos – estimados em mais de R$ 2 milhões – com candidatos de peso, como a Secretaria de Estado de Cultura (Secult), a Secretaria de Turismo do Pará (Setur) e uma série de eventos propostos por outros órgãos governamentais e prefeituras para promover o agronegócio em toda a Amazônia Legal – área de abrangência dos editais.

O resultado dos selecionados abrange o Edital de Patrocínios, para propostas nas áreas cultural, social, esportiva, ambiental ou de feiras e congressos; a Chamada Pública da Lei Rouanet, para projetos culturais selecionados pela lei de incentivo federal; e o Edital de Pauta do Espaço Cultural Banco da Amazônia, voltado à exposição e circulação de projetos nas artes visuais. Mas o primeiro foi o que causou mais desconforto entre a classe artística, já que quase 30 aprovados eram eventos como a “Abertura da Colheita da Soja”, a “Agroshow” e a “Agrotins”, todos voltados ao agronegócio.

“Ver eventos de agronegócio sendo patrocinados é meio sem sentido. Tudo bem que é o Banco ‘da Amazônia’, mas deveria ser para apoiar a Cultura, o Esporte da Amazônia. Essas feiras têm uma lista enorme de empresas, empreendimentos, que podem bancar a realização delas, você chega lá tem um monte de estande. São eventos para produzir dinheiro”, destaca a cantora Simone Almeida. 

O cineasta Walério Duarte se manifestou em rede social lembrando que, além de não dependerem de editais, as feiras não valorizam a cultura local: “Vai pagar cachê de forró universitário - shows que lotam e faturam”, escreveu.

CONCORRÊNCIA SERIA INJUSTA E CRITÉRIOS POUCO CLAROS

O ator Stéfano Paixão, que concorreu ao edital, destaca que quem não foi selecionado não está questionando a seleção de outros artistas vencedores, ou que seus projetos não tenham sido aprovados, mas diz que a disputa e as razões para estar de fora não ficaram claras. “É um edital estranho porque abre pro artista independente concorrer no mesmo nível de igualdade com uma Secult da vida. Uma contrapartida que a gente oferece na proposta é o que o Banco terá como retorno - veiculação da marca, mídia –, o que é previsto em todo edital, mas, me diz, como eu, artista independente, vou competir com a estrutura da Secult?”.

Para os artistas, não fica claro a quem serve o Edital de Patrocínios, porque se é de produção cultural, eles acreditam que pessoas físicas não poderiam competir com empresas de grande porte e secretarias de Estado. “Eu quero disputar com outro artista que nem eu e aí o problema vai recair na minha proposta, se é boa, se interessa. A Secult tinha que ter o edital dela para patrocinar os artistas e não vir concorrer comigo. É descomunal o [secretário de Estado de Cultura] Paulo Chaves, que tem uma equipe trabalhando para ele, recurso público da cultura para administrar, uma equipe de mídia, mandar projeto para competir comigo, artista independente”, desabafa Stéfano Paixão.

A Secult receberá recursos para a 22ª Feira Pan-Amazônica do Livro, e a Setur aprovou um projeto de “Qualificação profissional para inserção no mercado de trabalho”. O Banco não divulgou os valores investidos em cada projeto, mas os artistas acreditam que apenas os valores destinados a essas duas iniciativas poderiam ser revertidos em muitas propostas feitas por quem realmente não recebe nenhum apoio, seja público ou privado. “E ainda tem um detalhe: quando você tem um projeto e envia a proposta ao banco, você faz um orçamento ‘x’, mas eles sempre diminuíram o valor do projeto. Se você orçou em R$ 40 mil, ele dizem ‘vamos patrocinar R$ 20 mil’, e você tem que refazer o seu projeto para caber no valor. Não sei se isso acontece com as feiras, mas para os artistas é assim”, lembra Simone Almeida.

A assessoria do banco foi procurada para esclarecer como ocorre a seleção dos projetos e a participação de órgão públicos, assim como os valores investidos nos projetos de diferentes portes. Mas até o fechamento da edição, não houve retorno.

PARA ENTENDER

Confira a relação completa dos projetos aprovados no site institucional: www.bancoamazonia.com.br/index.php/patrocinio

(Laís Azevedo/Diário do Pará)



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