ESTREIA

'Paraíso Perdido' chega aos cinemas com Jaloo entre os atores principais

POSTADO EM: Quinta-Feira, 31/05/2018, 09:32:49
ATUALIZADO EM: 31/05/2018, 09:32:49

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Divulgação

Afastada do cinema há 11 anos, desde o lançamento de “Ó Paí, Ó” (2007), a cineasta Monique Gardenberg se viu diante de uma urgência. Envolvida em vários projetos - os longas “Ó Paí, Ó 2” e “Caixa Preta” (adaptação do livro do israelense Amos Oz) e a série “Boca do Inferno” (outra adaptação, desta vez de uma obra de Ana Miranda) - ela se deu conta de que, neles, “dependia demais dos outros”. Enquanto isso, a trama de “Paraíso Perdido”, que chega hoje aos cinemas brasileiros, estava ali, quicando.

“Decidi que não queria depender de nada, que ia fazer uma história minha, autoral, em que só precisava de um grupo de atores para embarcar comigo. Falei pro Jeffrey (Neale, um dos produtores do longa, ao lado de Augusto Casé e Carlos Martins): ‘Vou filmar. Se não tiver dinheiro, a gente pede emprestado enquanto não sai o da Ancine [Agência Nacional de Cinema], mas tem que ser agora’”, relata Monique, que rascunhou a espinha dorsal da trama através de quatro de suas personagens femininas, embalada pelos versos sofridos de “Impossível Acreditar que Perdi Você”, do cantor e compositor mineiro Márcio Greyck.

Todo o processo de produção - roteiro, preparação, viabilização e realização - acabou sendo feito no intervalo de um ano. A urgência, lembra Monique, também estava diretamente relacionada ao conteúdo: “Eu temia que a história fosse ficar velha, se a gente não andasse rápido. Ela fala de temas de hoje, como do processo incrível de libertação dos gêneros, que ainda é uma questão, mas, daqui a pouco, espero que não seja mais. Ou do momento político quente que vivemos, que gera essa brutalidade mostrada no filme. Era importante colocar em cartaz esse filme que fala de amor e afeto em contraponto”, diz. 

Monique vislumbrava Celeste, Eva e Nádia, “três mulheres sofredoras por motivos diferentes”, vividas por Julia Konrad, Hermila Guedes e Malu Galli, respectivamente. Uma quarta, que viria a ser um homem travestido (Imã, interpretado pelo estreante cantor paraense Jaloo), entoava versos de fossa num número musical ambientado em um inferninho. A boate, Paraíso Perdido, é comandada por José (Erasmo Carlos, em seu primeiro trabalho no cinema desde “O Cavalinho Azul”, de 1984), um viúvo que deixou a vida acadêmica para abrir o estabelecimento, onde mantém sob suas asas uma família de aspirantes a cantores - seu filho Ângelo (Júlio Andrade), os netos Celeste e Imã, e o filho adotivo Teylor (Seu Jorge). 

Logo no início da história, Imã é agredido em frente à boate e socorrido por Odair (Lee Taylor), um policial civil que cuida da mãe, a ex-cantora Nádia, surda após uma agressão doméstica. Atraído por aquela família excêntrica, Odair aceita a proposta de José para fazer um bico como segurança de Imã. Ao mesmo tempo, a saída da mãe de Imã, Eva, da prisão, vai ajudando a construir a “história esburacada”, como define a diretora, tomada por ligações inesperadas, paixão, vingança e perdão. “É uma família que perdoa, que não julga, que se ajuda. O filme fala sobre traumas, perdas, tragédias, mas mostra que você pode sobreviver se tiver amor. E também joga luz nas pessoas ‘invisíveis’, o cara que entrega comida, o taxista, a manicure? Eles têm seu momento de fantasia, de poesia, naquela boate que contrapõe a brutalidade do mundo externo”, destaca Monique.

TRILHA ROMÂNTICA

A trilha sonora, uma grande homenagem à música popular romântica brasileira (Monique evita o termo “brega”, por carregar uma carga de preconceito), serviu não só como ponto de partida para a criação de “Paraíso Perdido”, mas é também ela própria uma espécie de personagem do filme, responsável por ilustrar o andamento da trama com números musicais do elenco. Para isso, Monique teve o auxílio de Zeca Baleiro. Ele assina a direção musical do longa, que conta com sucessos de nomes como Waldick Soriano, Odair José, Fernando Mendes e até Johnny Hooker.

“É um gênero tão brasileiro, tão presente na nossa alma, que foi alvo de preconceito. Eu precisava homenageá-lo. A história e os personagens têm essa característica intensa que emana da música romântica”, diz Monique Gardenberg.

Jaloo é elogiado em sua estreia no cinema

Paraense de Castanhal, Jaloo estreia como ator e prepara novo disco, “ft”, repleto de parcerias. (Foto: Divulgação)

Monique Gardenberg bate repetidas vezes na tecla da importância de ter o “elenco certo” para a encarar a missão de um filme como “Paraíso Perdido”. Numa história tão fragmentada, diz ela, é importante que os atores consigam fazer o espectador decifrar cada trama. 

Apesar do curto tempo disponível, a preparação da equipe demandou diversas frentes: ensaios dos números musicais, gravações em estúdio, aulas de língua brasileira de sinais (Libras)... Ao viver Imã, o cantor, compositor e produtor Jaloo, de 30 anos, foi envolvido em todas elas, logo em sua estreia no cinema - com direito a uma tórrida cena de sexo com Humberto Carrão.

Paraense de Castanhal, Jaloo é celebrado pela cena indie há alguns anos como um dos mais fortes representantes de uma geração de artistas LGBT, que inclui ainda nomes como Liniker, Johnny Hooker e Rico Dalasam. Em 2015, lançou seu álbum de estreia, “#1”, em que faz uma delicada mistura de indie pop, música eletrônica e technobrega. Com ele, fez uma turnê de três anos, que rodou por festivais do Brasil e chegou até a Índia. Sua ligação com o audiovisual não é de hoje: é ele o responsável por roteirizar e dirigir seus próprios e elogiados clipes.

“Jaloo teve uma reação parecida com a da Cleo Pires quando a convidei para fazer ‘Benjamin’ (2004). ‘Eu quero. Como eu vou fazer, não sei, mas eu quero’”, lembra a diretora. “Ele já tinha um olhar interessante em relação à câmera, dava para ver em seus clipes. O mistério era a questão de como emitiria a voz, mas ele foi muito bem preparado nesse sentido. Começamos pela cena mais difícil, em que ele é atacado na rua, e ele foi perfeito. Ele entendeu muito claramente a leveza do Imã. Imaginava-o como um personagem de muita luz, muita sensibilidade e, depois de ver um show do Jaloo em São Paulo, tive a certeza de que era um ser de luz”, elogia.

Empolgado com as reações dos convidados que acompanharam as sessões de pré-estreia no Rio e em São Paulo, Jaloo comemora a estreia: “O processo de preparação foi quase como um exercício de sobrevivência na selva, porque eu fiz de um tudo. Eu tinha um pouco de receio, claro. Já vi filmes muito ruins da Madonna e sei que pode ser arriscado um cantor se meter nesse mundo (risos). Mas a Monique é muito sabichona e sabia que eu ia dar conta. Acho que eu consegui desenvolver bem o processo de lidar com a câmera, de esquecer de sua existência, e isso é algo que já estou usando no meu próximo clipe”, diz o cantor.

Após um longo período sem lançar novas músicas, Jaloo apresentou há dois meses o single “Say Goodbye”, uma parceria com a produtora Badsista, que serve como despedida da estética introduzida em “#1”. Para a nova turnê, “Mestiço”, que passou pelo Rio de Janeiro no último sábado, o músico mudou de visual - o cabelo de franja indígena deu lugar a um corte mais curto, preservando uma barba por fazer, e o figurino branco esvoaçante foi trocado por um mais sóbrio, vermelho. O show antecipa o conceito de “ft”, seu próximo disco, previsto para setembro.

“É um trabalho muito mais pautado em referências masculinas. Acho importante contar sempre uma história nova, começar do zero. Eu tenho essa fome, essa alegria de viver. O disco é todo pautado em parcerias, por isso o nome ‘ft’ [de feat], não só com vocalistas, mas também com produtores. Quero chamar atenção para esses artistas tão talentosos, mas que ficam mais no backstage”, adianta.

(Luccas Oliveira Agência O Globo)



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