TRABALHO ESCRAVO

Em longa, Dira Paes será mãe que cruzou o Pará em busca do filho aliciado

POSTADO EM: Domingo, 20/05/2018, 11:46:23
ATUALIZADO EM: 20/05/2018, 11:53:47

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Divulgação

Há onze anos, quando o cineasta Renato Barbieri conheceu a história da maranhense Pureza Lopes Loyola, ele soube que tudo daria um grande filme. Aos 53 anos de idade, no início da década de 1990, ela passou por uma longa jornada no interior do Pará em busca do filho, um jovem de 18 anos, aliciado para o trabalho escravo. Com gravações marcadas para o próximo mês, em Marabá, sudeste paraense, o diretor já está trabalhando com sua equipe no local e conversou com o caderno Você sobre a produção e o roteiro de “Pureza”, e sua grande personagem, que será interpretada por Dira Paes.

Barbieri conta que desde o lançamento de seu filme anterior, “As Vidas de Maria” (2005), com Ingra Liberato, tinha decidido que seu próximo filme de ficção teria de ser uma história universal, que pudesse atravessar a fronteira e ser compreendido por outros povos e culturas. “E vi na história de dona Pureza, entregue a mim por um amigo fotógrafo, o Hugo Santarém, de Brasília, que havia feito uma pesquisa preliminar, essa possibilidade”, afirma. 

Desde 2007, o diretor dedica-se, junto ao produtor brasiliense Marcus Ligocki Júnior, à construção da história, que será uma ficção baseada em fatos reais.

Levou algum tempo para que o diretor conseguisse entrar em contato com Pureza, que mora em Bacabal, interior do Maranhão. Foi um padre da Comissão Pastoral da Terra, que a tinha ajudado a encontrar o filho e que já conhecia o trabalho de Barbieri com “Atlântico Negro na Roda dos Orixás”, filme que ganhou Margarida de Prata, da CNBB, quem conseguiu o número do telefone dela. A senhora, então chegando aos 70 anos, aceitou com alegria o convite do diretor, que chegou a visitá-la ainda em 2007 e teve acesso a seu acervo sobre o caso, com fotografias, depoimentos gravados em áudio e publicações em jornais.

“Uma grande e destemida mulher guerreira”, como Barbieri a descreve, Pureza escreveu cartas pedindo ajuda a três presidentes – Collor, Itamar e FHC. “O único que lhe respondeu foi Itamar Franco”, conta o cineasta. 

No roteiro, é mostrada essa longa jornada de Pureza, que, munida do gravador de áudio e uma pequena câmera fotográfica, passa a recolher evidências de trabalho forçado e de atrocidades cometidas por fazendeiros no Norte do país. 

Mas, chegar a um roteiro definitivo não foi simples. Foram onze anos de escrita para seis tratamentos do texto, nos quais participaram diferentes profissionais. As últimas três versões e a versão definitiva são assinadas Barbieri e Ligocki. A preocupação em torno dessa criação envolvia ter veracidade com os fatos originais e ter consistência dramática na história, “por isso que ela é ‘inspirada em fatos reais’, e não uma adaptação direta da realidade”, reforça o diretor, que ao mesmo tempo está dirigindo o documentário “Servidão”, sobre como se forma e se sustenta o ciclo do trabalho escravo, bem como a rede de combate a esse crime. 

Filme terá Marabá como locação

Renato Barbieri já trabalha em Marabá com parte da equipe do longa “Pureza”. Serão três meses de trabalho intenso na cidade. (Foto: Divulgação)

Para representar bem Pureza, Renato Barbieri escolheu Dira Paes, uma paraense que é a cara do Norte. A preparação da atriz para viver a maranhense em busca do filho incluiu conhecer pessoalmente a personagem, em Bacabal. E acabou se tornando também um grande momento para o diretor, que não voltava à cidade desde seu primeiro contato com Pureza. Muito lúcida, forte e bem resolvida, ela voltou para casa assim que encontrou o filho Abel. Evangélica, continua tendo uma fé inabalável, o que provavelmente foi o que a manteve de pé enquanto passava por situações de perigo, fome e medo ao embrenhar-se por florestas em busca do filho. Uma personagem que, no mínimo, oferece um bom desafio à estrela paraense.

PRODUÇÃO

O diretor de “Pureza” ficou encantado ao conhecer Marabá e não teve dificuldades em escolhê-la como principal local de gravação do longa. Com arquitetura diversa, cada bairro ou área da cidade acabará servindo como cenário para retratar outras cidades por onde Pureza passou: desde Bacabal até Imperatriz, no Maranhão, assim como Açailândia, Altamira e Rondon do Pará. Só em termos de rodoviárias, são quatro opções disponíveis para o diretor, que já considera a cidade com uma forte vocação cinematográfica.

“Todas as locações já estão definidas e optamos por fazer 85% das filmagens em Marabá – pelas condições logísticas, técnicas e artísticas que essa cidade paraense nos oferece – e o restante em Brasília”, comenta Barbieri. 

Uma equipe está em Marabá de forma definitiva e nos próximos três meses haverá filmagens. Dira Paes chega no final do mês com os filhos, pois a rotina será intensa - cerca de 12 horas de trabalho por dia. Ao todo, são cerca de 40 atores, incluindo profissionais de Belém, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

A equipe técnica e de produção do filme contará com cerca de 50 pessoas, incluindo o cineasta Affonso Beato na fotografia. Ele tem seu nome em grandes filmes, como “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Pedro Almodóvar, e “A Rainha”, de Stephen Frears. “Ele é, a meu ver, o mais internacional nome do cinema brasileiro. Um profissional de talha, respeitadíssimo, e com títulos de enorme prestígio em sua filmografia”, elogia Barbieri. 

Com lançamento de “Pureza” previsto para o final de 2019, a intenção do diretor é levar o filme para o circuito internacional e nacional de festivais até meados de 2020 e, logo depois, fazer o lançamento nacional, com distribuição da DownTown. Além desta distribuição já definida, a produção já agrega a parceria de 25 instituições, como a Secretaria de Justiça, Secretaria Nacional de Direitos Humanos, TRT 8ª região, Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, CPT, Sinart, além da Unesco e Itamaraty.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)



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