GERSON NOGUEIRA

Leia a coluna de Gerson Nogueira desta segunda-feira, 09: Nova derrota, velhos problemas

POSTADO EM: Segunda-Feira, 09/07/2018, 09:59:30
ATUALIZADO EM: 09/07/2018, 10:04:07

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Raphael Graim/Remo

Não se pode negar que a arbitragem foi ruim, parcial e influiu no resultado. Os dirigentes e jogadores do Remo têm o direito de espernear contra a confusa atuação do mediador carioca, bem como acertam em pressionar a FPF por mais participação e apoio aos clubes locais em questões de bastidores na Série C – embora devessem cobrar isso sempre.

Por outro lado, não há como esconder que o Remo atuou razoavelmente bem, teve a posse de bola, mas não foi competente para chegar ao gol. No 1º tempo, depois do gol sofrido logo aos 11 minutos, os azulinos tiveram espaço para manobrar, mas se atrapalhavam no penúltimo passe.

Os problemas começavam na saída de bola, com os volantes Geandro e Leandro Brasília falhando em passes simples, de três metros de distância. Ao longo do jogo, Geandro errou onze passes. Em diversos momentos esses erros permitiram investidas perigosas do Santa Cruz pelo lado esquerdo do ataque, sobrecarregando Nininho e Elielton.

No meio, Rodriguinho corria sozinho, tendo que superar vários marcadores posicionados na linha média. Ainda assim, o Remo ameaçou diversas vezes e levou perigo quando alçava bolas da linha de fundo. Numa delas, aos 26 minutos, o zagueiro Danny Morais desviou a bola com a mão para impedir o cabeceio de Isac. A arbitragem ignorou o pênalti claro.

Para o 2º tempo, precisando desesperadamente do empate, o Remo mudou de postura. Tornou-se mais agressivo, intensificou a pressão. Perdeu duas grandes oportunidades. Uma com Isac, que obrigou o goleiro Tiago a fazer defesa difícil, e outra com Eliandro, que cabeceou no travessão, aos 42’.

Inteiramente acuado, o Santa Cruz só se defendia, raramente atacava. Já nos acréscimos, deu seu segundo chute a gol e fez 2 a 0, em cobrança de falta que desviou na barreira e enganou o goleiro Vinícius. Um desfecho penoso para os azulinos, mas bem revelador da instabilidade técnica e das limitações do elenco que João Neto tem sob o seu comando. 

Lições que Tite não pode desprezar para 2022

 O amigo Carlos Lira, um dos baluartes do blog campeão, observou ontem que o Brasil anda ignorando o próprio sentido da palavra “seleção”. Significa, em português simples, reunião dos melhores. Em futebol, seleção é a escolha dos jogadores mais capacitados a representar um país. Nos últimos anos, não por acaso, a Seleção Brasileira pouco rendeu em Copas justamente por menosprezar esse princípio básico.

A convocação feita por Tite produziu um grupo cheio de fragilidades. Vários jogadores foram levados à Rússia longe das condições ideais para uma competição que exige excelência. Não se improvisa em Copa do Mundo, a não ser em casos extremos ou se a seleção for da Papua ou de Malta, onde não há jogador suficiente para compor um elenco.

Fagner, Danilo, Fred, Renato Augusto, Douglas Costa. Cinco atletas “baleados”, como se diz na linguagem boleira. É inconcebível que no país do futebol não houvesse alternativa para esses atletas. Deixou de lado opções óbvias: Rafinha, Artur, Paquetá, Rodriguinho, Dudu, Luan.

A justificar a presença de lesionados e em recuperação pós-operatória (como Fagner), apenas o apego ao tal “espírito de família”, tão cultivado por treinadores da antiga, como Felipão e Zagallo.

Contra os gigantes belgas, ficou óbvia a necessidade de atacantes altos. Ao invés disso, Tite tinha no banco um de seus “homens de confiança”, Taison, que viajou a passeio, capricho e – quiçá – valorização no mercado.

Na fatídica partida de sexta, a Seleção precisou como nunca de alguém capaz de quebrar as barreiras defensivas belgas, facilitando a passagem de Neymar, Coutinho e o próprio Gabriel. Esse jogador não existia.

Tite pecou pelas escolhas, pela demora em reagir a um resultado adverso e pela fidelidade cega a conceitos arcaicos. Isso não desmerece o conjunto de sua obra na Seleção. É justo que tenha uma nova chance. Só precisa deixar de lado o compadrio e entender o caráter decisivo de todos os jogos de uma Copa. Aprender com os erros é prova de sabedoria.

Miscigenação intensa explica o poderio europeu

Nos últimos dias, a propósito da eliminação do trio de ferro sul-americano – Brasil, Argentina e Uruguai –,surgiram inúmeras teses para explicar o predomínio europeu. Desde 2006, com a Itália, a Europa prevalece nos mundiais – ganhou em 2010 com a Espanha e 2014 com a Alemanha.

O principal fato gerador dessa hegemonia já é perceptível dentro de campo. As seleções europeias ostentam uma miscigenação nunca vista antes. Até a alva Alemanha apresenta vários jogadores mestiços. Na França, Inglaterra e na Bélgica, filhos de imigrantes formam mais da metade dos times.

A mistura étnica produziu uma verdadeira revolução no futebol. A ginga e o jeito especial de bater na bola, características históricas dos times latinos, agora passam a fazer parte do repertório europeu.

A esses atributos juntam-se o condicionamento físico e a melhor formação de atletas. Um combo que faz toda a diferença e deixou o futebol da Europa mais intenso, organizado e qualificado.

Sul-americanos, africanos, árabes e asiáticos precisam se mobilizar para buscar reverter o quadro e estabelecer um patamar mais equilibrado.



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