OPINIÃO

Boa prosa e simplicidade: segredos de Walter

POSTADO EM: Domingo, 18/03/2018, 10:19:36
ATUALIZADO EM: 18/03/2018, 10:19:36

Walter tem encantado a torcida do Papão pela franqueza até ingênua de suas declarações. O jeitão simplório é cativante, remete a lembranças de jogadores carismáticos que passaram há anos pela Curuzu – Fio Maravilha e Rei Dadá, principalmente. Suas primeiras entrevistas, concedidas logo que desembarcou em Belém, confirmaram a natureza inteiramente diferente em comparação com boleiros de sua geração.

Aborda sem rodeios a dificuldade para lidar com comida, mostra-se tranquilo quanto às gozações sobre sua forma física. Reclamou em tom ameno, com toda razão, da carestia em Belém em conversa com o repórter Dinho Menezes. Admitiu, sem tergiversar, a falha óbvia de marcação ocorrida no lance do gol remista no clássico de domingo passado.

As afirmações de Walter são quase inacreditáveis no cenário das entrevistas sem sal que o futebol dito moderno oferece ao distinto público. Hoje, jogadores são extremamente preocupados em tornar inofensivas suas falas, a fim de evitar qualquer tipo de embaraço ou polêmica.

Por isso mesmo, ouvir um boleiro falando sobre o jogo ou o próprio ofício virou um subgênero do humor involuntário. Há sempre um desfile de obviedades, com o carimbo do discurso bem ensaiado.

Talvez a empatia despertada por Walter junto ao torcedor tenha origem nessa pureza d’alma, tão fora de moda e ao mesmo tempo tão bem-vinda. De certo modo, lembra um jogador saído diretamente de uma janela qualquer entre os anos 60 e 70, quando o físico não era tão determinante para resultados em campo e as prosas eram mais francas e sinceras.

É cedo ainda, mas, caso venha a exibir em campo pelo menos parte da boa técnica já mostrada em outros clubes, Walter tem condições de se instalar como ídolo alviceleste, cargo desocupado há pelo menos 15 anos, desde que Vandick saiu de cena.



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